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materialismos históricos em banda desenhada

e o Festival Internacional de BD de Beja

Da história material ao que deveria ser capital comum da Humanidade, a nossa intervenção anterior passará despercebida em intenções aos alheados de pormenores. Teimemos: apresentámos a adaptação de Martin Rowson do "The Communist Manifesto" à laia de putativo benchmarking, não falte imaginação aos que descuram do entrelinhas. Daqui, um pequeno salto ao melhor da banda desenhada que se congrega nestes dias: obviamente, chegados ao Festival de BD de Beja.


I


O programa anuncia exposições e outros conformes à circunstância, mas a nossa atenção recairá invariavelmente em leituras que poucos enfada: não tratamos o que dizem, mas do que dizem. Insistimos. São frentes que não inquietarão festivais ainda aos papéis, mas toca a todos os que notam a paridade actual de meios de produção/consumo na BD desmaterializada pelo digital com outras revoluções.


"The Bastard Offspring of Art and Commerce Murder Their Parents and Go off on a Sunday Outing" de Art Spiegelman

Relembramos. A BD como a reconhecemos surge na imprensa no virar do século XIX entre lutas de jornais embirrados de notícias falsas e sensacionalismo para as massas analfabetas, devendo a sua génese às tecnologias de impressão em falta e ocupando a mais baixa consideração em escalas de legitimidade artística como "bastarda da arte e do comércio".

Um rearranjo de X e I e no virar do século XXI todas as forças que moldaram a BD acordam em tumulto selvagem, apenas o ambiente de sensacionalismo e fake news às massas iletradas a equivalência possível, não errassem pela novidade da regressão que são. A indústria que a sustenta arrastada no turbilhão do digital, a imprensa particularmente intimada improvisa sem rumo a um passo do cataclismo total. A impressão, processo que se confunde à própria acepção da banda desenhada enquanto meio, hoje mera opção facultativa removida a imperativa necessidade. Dessa liberdade, uma esquizofrenia do progresso resistido à graça do fetiche do leitor, preguiça do autor ou insipiência de ambos. Insulto final a uma arte rasteira e popular, igual atrofio de uma emancipação em compasso de espera espreita sobre a BD: academia, museus e galerias atropelam-se para a erguer a altares que lhe retorcem a natureza. Atracada no passado ou idealizada nesse, a BD deve reinventar-se para permanecer autêntica.

Tech, $$$, os media. A tempestade perfeita de que não te aperceberás ao passear pelas diferentes propostas do Festival - tão informado dessas urgências como um feed do Facebook à realidade. Entre convivas BD digital será sinónimo de Comixology ou timelines de redes sociais, nenhum a merecer dúvidas de maior. O tema sem debate, a workshops do faz-a-tua-bd podem ser acrescidos o habitual faz-o-teu-zine, mas ninguém se deterá pelo mais óbvio faz-o-teu-site para a-tua-bd. Para os mais avançados, faz-a-tua-bd-no-teu-site.

A estreita ligação da BD à indústria/comércio de conteúdos/comunicação, tecnologias de produção/consumo de cultura/informação para as massas/nichos coloca-a em posição privilegiada de arenas onde se ameaça ruir Estados e redesenhar a sociedade a serviço de um par de gigantes corporativos, incidentalmente encontrando-se na linha da frente de revoluções estruturais profundas, canário de mina como a tecelagem e outras manufacturas o estiveram para épocas idas.

Hélas a BD nunca foi um bem de primeira necessidade, e se nos lês pelos cómicos deixamos-te em mãos a problematização dos quadradinhos em apogeu de retangulozinhos, um meio para um fim. A restante missiva destina-se aos punks entre nós e todos os que se ocupam desses fins. Mah luddites, where u at?


II


Seguindo de manifestos comunistas, excertamos livremente outro ensaio de causas comuns para recordar-vos a importância de colocar (certo tipo de) BD online, e não só. Mashup em acelerado porque sabemos que têm sítios para ir hoje.

To the extent that people accommodate themselves to the faceless inflexibility of platforms, they will become less and less capable of seeing the virtues of institutions, on any scale. One consequence of that accommodation will be an increasing impatience with representative democracy, and an accompanying desire to replace political institutions with platform-based decision making. These trends will bring, in turn, the exploitation of communities and natural resources by people who will never see or know anything about what they are exploiting. The scope of local action will therefore be diminished, and will come under increasing threat of spooky action at a distance. This is how nation-states become wholly owned subsidiaries of transnational corporations.
Alan Jacobs in "Tending the Digital Commons: A Small Ethics toward the Future" 2018

A solução? Começa por fazer o teu próprio sítio online, é agora tão rápido como começar um zine.

To teach children how to own their own domains and make their own websites might seem a small thing. In many cases it will be a small thing. Yet it serves as a reminder that the online world does not merely exist, but is built, and built to meet the desires of certain very powerful people - but could be built differently. Given the importance of online experience to most of us, and the great likelihood that its importance will only increase over time, training young people to do some building themselves can be a powerful counterspell.

Training young people how to live and work extramurally is a vital hedge against this future. To know that there are alternatives, and alternatives over which we have a good deal of control, is powerful in itself. And this knowledge has the further effect of reminding us that code - including the algorithmic code that so often determines what we see online - is written by human beings for purposes that may be at odds with our own.
Alan Jacobs in "Tending the Digital Commons: A Small Ethics toward the Future" 2018

Com a Open Web cada vez mais cercada, poucos são aqueles que ainda se recordam desta além-Facebook.

Facebook, Instagram, Snapchat, and Pinterest are walled industrial sites, within which users, for no financial compensation, produce data which the owners of the factories sift and then sell.

Many users feel themselves amply compensated by the aforementioned provisions: ease of use, connection with others, and so on. Why should someone go to the trouble of downloading and learning to use those tools, rather than rely on the freely - or "freely" - available structures of walled factories? Such users should realize that:

  • everything they find desirable and beneficial about those sites could disappear tomorrow and leave them with absolutely no recourse, no one to whom to protest, no claim that they could make to anyone.
  • these technologies shape the formation of their understanding of the world—how knowledge is formed and shared; how identity is formed and expressed.

Comparing a platform like Facebook with traditional social institutions we have seen and will continue to see in our social order is the fragmentation of institutions and their effective replacement by platforms. This process has often been celebrated: "the great virtue of the Internet is that it erodes power. It sucks power out of the center, and takes it to the periphery, it erodes the power of institutions over people while giving to individuals the power to run their lives [Esther Dyson]" But, the problem, though, is that disintermediation has not lived up to its potential. Instead, it has facilitated the rise of a new generation of mediators. As much as networked technology has dismantled and distributed power in more egalitarian ways, it has also extended and obscured power, making it less visible and, arguably, harder to resist.

More and more, we will be asking technological platforms to do the kind of unifying work educational institutions clearly can no longer do. Platforms of the Facebook walled-factory type are unsuited to the work of building community, whether globally or locally, because such platforms are unresponsive to their users, and unresponsive by design. Those platforms train us to do what they want us to do, rather than be accountable to our desires and needs. May seem liberating at first but that sense of liberation will continue only insofar as users train themselves to ask the questions the platforms already know how to answer, and think the thoughts the platforms are prepared to transmit.
Alan Jacobs in "Tending the Digital Commons: A Small Ethics toward the Future" 2018

Que nos trás de volta ao repto habitual que vos fazemos.

Punx of tha world, UPLOAD!

The open Web, while not free from governmental and commercial pressures, is about as free from such pressures as a major component of modern capitalist society can be.

No one owns the Internet or the World Wide Web. We need to revivify the open Web and teach others - especially those who have never known the open Web - to learn to live extramurally: outside the walls.

The open Web is effectively a set of protocols that allows the creating, sharing, and experiencing of text, sounds, and images on any computer that is connected to the Internet. Those protocols are relentlessly generative, producing a heterogeneous mass of material for which the most common descriptor is simply "content." [We need to] engage with that original purpose of the Web - sharing information and collaborating on knowledge-building endeavors. Far beyond the mere acquisition of skills [the goal is] far more radical: to have a space of their own online, along with the support and the tools to think about what that can look like.
Alan Jacobs in "Tending the Digital Commons: A Small Ethics toward the Future" 2018

Radicalismos que não vos esperam em Beja porque, como antes de Marx, essa história está por escrever. Fica o resumo possível aos miúdos:

As mudanças nos meios de produção implicam revoluções e guerras, história é o resultado dessas lutas e deslocações de classes.

velhas tradições

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saudáveis, ódiosos, livres

Interrompemos considerações à BD em digital e declínio do livro, e no tópico de "poesia, a filosofia, as ciências humanas, o teatro", o nosso/vosso takeaway a leituras de fim-de-semana.

A última crónica de José Pacheco Pereira, neste jornal, era um grito de alarme e uma exortação - merece ser repercutido, discutido e prolongado.
in "O saudável ódio aos livros" 9 mar 2017

Também a de António Guerreiro (*), de quem pacientemente desejamos assistir a uma troca de argumentos online. Exortamos-vos ao mashup:

*) E porque já não é início de fds sem um comentário nosso às suas crónicas semanais. A anterior resume boa parte do nosso capítulo em media / imprensa / tecnologias: se não nos leram à data, têm aqui os cliff notes necessários ao “Fim de um Mundo” 2 mar 2018.

A verdade é que não assistimos, no nosso tempo, a um declínio do livro como medium. Pelo contrário, eles são cada vez mais abundantes e o mal de que padece o sector não se manifesta no emagrecimento, mas na obesidade. (...) Tanto livro, tanto livro, mas a maior parte do património literário está completamente ausente da edição e, ainda mais, das livrarias. (...) E assim tudo concorre para a lógica perversa da extinção ou da circulação quase clandestina de uma parte muito importante da produção editorial.

No entanto, sabemos muito bem que há espécies bibliográficas em perigo, que há géneros minoritários que vão escasseando. O que está em perigo é precisamente o sector da literatura, do ensaísmo, da ciência e das humanidades.

Podemos dizer que os livros gozam hoje de um prestígio que, na generalidade, já não merecem; e que não há maior injustiça do que o triunfo deste canibalismo do lixo editorial que, ainda por cima, se alimenta do capital simbólico daqueles que ele devora. Não há certamente nenhum outro sector da produção e do comércio tão necessitado de uma revolução, de uma destruição que faça tábua rasa da ordem existente. Aguardamos com impaciência e pouca esperança um assalto total perpetrado por grandes destruidores. Entretanto, tenhamos a coragem de dizer à entrada de uma dessa livrarias que nos recebem com os “tops” de “ficção” e “não-ficção”: odeio livros.
in "O saudável ódio aos livros" 9 mar 2017

OS POSITIVOS: protegendo espécies em perigo, a educar uma nova geração de vândalos às portas da cidade pela destruição que faça tábua rasa à ordem existente - e porque odiamos livros nos tops, reais ou ficcionados - falamos dos tops.

Fazemos a nossa quota-parte de literatura ensaiada em ciências e humanidades com filosofia dramática e algum lirismo à mistura - se nos souberem encontrar, ie: aquilo do clandestino.

mo' free hate

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but is it art?

A BD e arte contemporânea partilham de inquietações similares. Autores na primeira aproximam-se de preocupações conceptuais dos segundos, estes informam-se das tradições dos primeiros. A desconfiança persiste e a diferença que os separa o valor dos comics.

A arte por baixo possui uma longa tradição, particularmente importante em princípios de identidade, uma que também resulta da partilha de referências e códigos estéticos além dos costumes e práticas. Se a banda desenhada acumula capital cultural suficiente para requerer uma legitimidade maior entre as restantes artes, importa-nos que a) não se importe muito com isso b) o mereça porque os usos que dessa se faz e com ela o façam aconteça por apropriação de baixo para cima, não rarefação de cima para baixo.

Perdoem-nos o essencialismo, mas o nosso pecado é mesmo a reivindicação de uma autonomia própria à BD.

Da nossa parte, porque demasiadas vezes é esquecido ao debate, recordamos a importância da sua relação à tecnologia. Compreendam-me, fala-vos o anarcho-primitivista: numa sociedade inteiramente pastoral não nos apanhavam a perder tempo com rabiscos de bd. Ignoremos o óbvio - os comics não teriam surgido numa realidade estranha à comunicação de massas – e consideremos o provável: mesmo de regresso à pastorícia em modo pós-apocalíptico e dotados do conhecimento prévio da possibilidade de banda desenhada, ela seria um péssimo empreendimento que a ruína do esforço necessário renderia inútil, abandonado logo na própria geração ainda recordada dos Patinhas que liam em puto antes do Trumpas puxar do botão. Todos aqueles que hoje divagam em desenhos partiriam para a pintura ou para a literatura, exercícios solitários mais proveitosos à introspecção do que sequenciar pinturas e textos com métodos artesanais sem pressuposição de leitura por Outro(s). E, claro, aqueles que hoje desenham por $$$ seriam os primeiros a mandar a bonecada pastar – desses estamos conversados.

Circa séc. XXI, webs-et-dígitos e canais de distribuição audiovisuais e textuais que rodam várias vezes o mundo num só dia, a banda desenhada é parte integrante de um arsenal contra-a-cultura. Podemos, devemos, questionar que formas toma a banda desenhada enquanto meio de expressão e comunicação numa sociedade pós-industrial.

À nossa significação em Autenticidade na banda desenhada vemos-mos assim na necessidade de discutir esta arte com “a” pequeno sem bolinha ante uma Arte dita maior, um debate difícil que nos obriga à desambiguação implicada mais premente: serão os comics, arte?

Obrigados então.

art comics

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de dogmas práticos e práticas dogmáticas

Falávamos de identidade, diz-nos Bruno Campos no aCalopsia:

...O AmadoraBD tem[-se] transformado numa versão rasca do Salão de Lisboa, sem identidade própria, assolado por um caos crónico, um evento despersonalizado que esqueceu a sua história e o seu público que o visitava.
in "Amadora BD na Intersecção da Cultura e da Politica em Portugal" 24 nov 2017

E continuando destas, BC identifica como os "rostos mais visíveis" da transformação "pessoas como Nelson Dona, Marcos Farrajota, Sara Figueiredo Costa e Pedro Moura" a quem atribui o "delapidar progressivo da herança do festival". Acusa BC os ND, MF, SFC e PM de -

...subversão do conceito de um festival generalista virado para o grande público num evento que talvez pretenda ser mais "artístico", para não lhe chamar elitista centrado numa experiência museológica bafienta, datada e muitas vezes anacrónica.
in "Amadora BD na Intersecção da Cultura e da Politica em Portugal" 24 nov 2017

Aquilo que sucedeu nos PNBD 2017 é só o reflexo daquilo em que o festival se está a transformar: uma festa privada, organizada sem critério e onde impera o gosto pessoal de quem tem o poder para decidir.
in "Amadora BD na Intersecção da Cultura e da Politica em Portugal" 24 nov 2017

In a nutshell, BC faz a "opção clara por um modelo inspirado na raiz popular que o festival teve, adaptado à realidade do mercado" – sempre destaques nossos -, por oposição à estratégia desenvolvida em anos recentes.

O AmadoraBD só é uma inevitabilidade até ao dia em que o deixar de ser, enquanto o público não o abandonar.

Ao longo destes 17 anos tem existido um maior preocupação com a "cultura" e a "arte" do que com a parte popular, o festival. (...) O conceito implementado (...) esquece que um museu e um festival são duas coisas distintas. (...) Os autores e a suas obras passaram a ser secundários no festival, [que] fazem com que o festival viva virado para o passado, transformando-o numa experiência previsível e desligada do mercado que deveria promover.
in "Amadora BD na Intersecção da Cultura e da Politica em Portugal" 24 nov 2017

Temos então festas populares e realidades de mercado que se opõem a confraternizações privadas, elitistas e anacrónicas embrulhadas de cultura e arte.

Ie, Bruno Campos como fanboy.

E dizemo-lo assim para fazer dele o óbvio vilão desta tragédia que devem desdenhar- vilão e tragédia ambos. Mas, com um twist de argumento, talvez terminemos a nossa aventura com a sua redenção em anti-herói improvável de toda a história (*). Só não o é -vilão ou herói- porque esta não trata dele. Ou de nós.

* Cliffhanger alert!

E de identidades quase todas definidas, excepto a nossa. Espreitemos debaixo da capa - pun intented! Em teoria, nOS POSITIVOS estaríamos nos antípodas dos heróis em collants, e provavelmente mais próximos dos universos vilipendiados na peça: Fantagraphics e Drawn & Quarterly 4 ever!... Mas como antes, o que parece no papel –e monitor- não transpõe de forma tão linear IRL, tão mais complexa e sórdida em relações que se fazem, pelo que continuamos a repudiar as circunstâncias concretas da materialização de pressupostos sobre a que deveria ser a nossa primeira natureza. Se tiverem a paciência de nos ler compreenderão porque estamos com o fanboy.


I


A concluirmos em concordância a BC, primeiro temos que discordar dele: os seus argumentos não são os nossos (*).

* "...mas defendemos o seu direito a argumentar". E não têm como o saber, mas estamos a citar-nos a nós próprios, neste mesmo contexto :)

No blog Os Positivos refere-se que os autores nacionais, os tais supostamente independentes e alternativos, "submetem a sua liberdade criativa trocando autonomia por auditoria (pública)." Estão parcialmente correctos.
in "Amadora BD na Intersecção da Cultura e da Politica em Portugal" 24 nov 2017

"Parcialmente"...? Oh, it's on!

É uma questão de gestão de fundos

Como BC repete várias vezes, é política. Ele apresenta o caso em pleno arrebatamento neoliberal com as políticas que podemos esperar desse quadrante ideológico: austeridade.

Existem duas opções na gestão de fundos públicos para as artes:

  • Promover uma elite, organizando eventos e publicando autores que uma minoria na sua sapiência intelectual e académica adora, mas a generalidade do público ignora, muitas vezes com bons motivos.
  • Promover um mercado de qualidade, em que o mais importante não é realizar algo para agradar à elite dos "críticos", mas apresentado eventos e autores diversificados e com qualidade.

O modelo utilizado pela Bedeteca foi o primeiro, o modelo utilizado pelo AmadoraBD costumava ser o segundo.
in "Amadora BD na Intersecção da Cultura e da Politica em Portugal" 24 nov 2017

O alvo do protesto? A nomenklatura ortodoxa que do topo do seu comité central apodera-se dos meios de produção (*).

* Obra feita sobre venues que outros trilharam não é grande honra. Se o ABD é uma festa do povo não aticem a cólera dos fanboys e deixem-nos ao seu folclore.

O mea culpa: somos culpados de simpatia para alguma dessa agenda e adversários óbvios a estratégias rendidas ao mercado. Não vamos contrapor argumentos com BC - diferentes escolas de pensamento? (*)- mas registamos o fundamental do apresentado a debate:

* O neoliberalismo requer mais texto do que aquele lhe queremos dedicar neste espaço - podem sempre ler o jornal, "Neoliberalism: the idea that swallowed the world" 18 ago 2017, e da última vez que vimos até entre economistas se admitia que o neoliberalismo é mau para a economia nos seus próprios termos: "The fatal flaw of neoliberalism: it's bad economics" 14 nov 2017.

A malevolência inerente aos sistemas capitalistas e etc e tal, já todos fomos devidamente avisados, sendo tópico de conversa constante.

A verdade é que o tópico mais relevante dos movimentos independentes internacionais continua a estar ausente do dialéctica chiliana nacional: a remuneração dos autores, a distribuição e comercialização de modo a permitir uma produção regular e, voltando a repetir-me, remunerada. A ausência desta questão explica-se, em parte, devido à maioria do debate ser realizado pelo crítico, o funcionário público ou o dirigente associativo, tendo como base um conceito de abstracto de "arte" onde se desvalorizam e até se criticam aspecto mundanos como o facto de os autores necessitarem de dinheiro para comer.

Eu não sou apologista do capitalismo selvagem, mas sou realista e tenho consciência num mundo capitalista, sem existir um mercado de BD não é possível remunerar os autores pelo trabalho que realizam. Tudo o que a dialéctica anti-capitalista e anti-mercado conseguiu nos 22 anos em que a CCC existe foi continuar a não remunerar os autores, pelo menos condignamente, porque os autores recebem 500 paus ou nem isso, contribuiu para estropiar um circuito independente, o qual era débil mas ficou pior após se transformar num circuito chiliano.
in "Amadora BD na Intersecção da Cultura e da Politica em Portugal" 24 nov 2017

E esta haverá de ter resposta nossa (*) no âmbito das teses, mas fica a nota:

O autor que faz arte pelo amor à arte sem se preocupar com o vil metal é um conceito muito poético e giro, para quem não é autor. Contudo, até os autores se transformarem em plantas capazes de se alimentarem por processos de fotossíntese, vivam num mundo pós-capitalista ou, melhor ainda, não necessitem de casa, luz ou adquirir materiais para a execução da sua arte, toda a conversa que ignora a sua remuneração não visa a sua real independência mas a manutenção do status quo de dependentes das benesses estatais, condenados a fazer BD em part-time, a emigrar ou então dedicarem-se a outras áreas como a ilustração infantil.
in "Amadora BD na Intersecção da Cultura e da Politica em Portugal" 24 nov 2017

* Ainda que o próprio se acerque das nossas opiniões. Diz-nos a dada altura, outro contexto, de terceiros:

É a morte lenta há muito anunciada: Quando a organização se torna um fardo em vez de um prazer, é o que acontece. – Nuno Duarte

Pois. Fardos e prazer tendem a não funcionar juntos, normalmente...

E o tique neoliberal da austeridade? Acabe-se o serviço público, os privados fazem-no melhor, e de qualquer maneira é a lei da procura e oferta quem mais manda.

Um dos maiores problemas do festival é o seu director ter as prioridades trocadas. Insiste numa perspectiva conceptual do evento enquanto experiência museográfica

Quando existe uma redução orçamental não faz sentido investir no supérfluo e desinvestir no essencial, mas é o que acontece na Amadora.

No AmadoraBD a escolha recai sempre em opções que, analisadas de um ponto de vista operacional e financeiro, parecem revelar incompetência ou má gestão de fundos camarários, ou ambas.

Um festival que está de costas viradas para o mercado está também de costas voltadas para o público, o que o transforma num evento incapaz de captar o interesse do público, o que acaba sempre por o condenar à morte.
in "Amadora BD na Intersecção da Cultura e da Politica em Portugal" 24 nov 2017

O arqui-inimigo dos mercados: a sua distorção na forma de subsídios - quando não os recebem enquanto rendas, ie. Também aqui temos de discordar das conclusões de BC.

Contudo, parece que a generalidade desconhece que é nos mercados mais competitivos que existe uma maior produção de autores alternativos. É nestes mercados que os autores conseguem realmente ser independentes dos decisores comerciais, estatais ou críticos.
in "Amadora BD na Intersecção da Cultura e da Politica em Portugal" 24 nov 2017

Considerem-nos generalistas nessa. Discordamos desse revisionismo histórico e do whitewash do underground como movimento acarinhado pelas lógicas de mercado duma Marvel / DC circa ‘60s e ‘70s, e sem esses a insurgirem-se contra a lógica da indústria hoje não haveria tendências "alternativas" – reais ou imaginadas. Como discordamos da importância que atribui ao $$$ público, e a total distorção que estabelece na relação entre quem paga a conta e quem canta de galo nessa: o abraçar o mercado sempre foi a antítese da voz autoral, não o seu paradigma.

Ao invés, num mercado pequeno como o Português, os autores acabam por ser quem menos ordena, quem tem menos poder ficando, dependentes do estado, seja no poder central ou no camarário. O qual foi elemento fundamental no desenvolvimento do mercado da BD nacional, moldando a produção de autores nacionais de acordo com uma ideologia pré-determinada e assumida, alheia aos interesses do público, à diversidade criativa e aos interesses dos próprios autores.
in "Amadora BD na Intersecção da Cultura e da Politica em Portugal" 24 nov 2017

Não só BC nos dá razões para não lhe estendermos a nossa simpatia, como nos desafia a torcer pela equipa adversária. Imaginem-se aterrados entre nós de outro planeta, e digam-nos que estas descrições não são pure candy entre os que militam nas nossas tendências:

Algumas pessoas têm saudades dos tempos "áureos" da Bedeteca

Costa Moura (...) os agentes subversivos que concluem para levar o evento na direcção do passado, talvez num sonho de reviver os dias de glória da Bedeteca de Lisboa e dos seus eventos, onde foram colaboradores.

Associação Chili Com Carne é um projecto anti-capitalista, anti-mercado [&] a Chili é uma associação e não se rege pelos princípios do neoliberalismo. Também convém não esquecer que na dialéctica chiliana o mercado é o inimigo, e o Presidente da Associação é um anti-capitalista convicto que não quer ser confundido com um porco capitalista. Marcos Farrajota é tão anti-capitalista e anti-mercado que nem queria ir para o AmadoraBD [e fazia] lançamentos piratas durante o festival.
in "Amadora BD na Intersecção da Cultura e da Politica em Portugal" 24 nov 2017

Têm o nosso voto. E, como sabem, não votamos. É a nossa costela do contra a falar mais alto, se querem um exemplo óbvio das nossas discordâncias com Bruno Campos, este serve:

O que era necessário discutir, aquilo que deveria ser a preocupação no debate sobre a BD nacional, deveria ser o seguinte:

  • Métodos de edição que permitem a remuneração dos autores;
  • Distribuição, como ultrapassar as limitações existente no mercado;
  • Exportação de obras, algo que já acontece de modo esparso, mas ainda não acontece com regularidade suficiente para permitir uma remuneração ou produção regular.
  • Divulgação mais eficaz do material publicado.
in "Amadora BD na Intersecção da Cultura e da Politica em Portugal" 24 nov 2017

As nossas propostas: digital, online, grátis - ou tendencial para suportar os custos. "Mercados" é palavra feia de porco capitalista.


II


Mas aqui acaba a teoria, segue-se a prática e onde a realidade se embrenha em escalas de cinza. Como recorda de Campos, estes vermelhos a viver do Estado não são "alternativa", são "o Sistema", e é-nos difícil esquecer onde sempre acabam os anarquistas cada vez que os comunistas sobem ao poder.

Mashup nosso para brevidade, não vá a extensão do original desmotivar-vos à leitura.

Dona e Farrajota são literalmente alimentados pelo sistema, porque são ambos funcionários públicos.

Existe um sistema que impede ou, no mínimo, faz tudo o que está ao seu alcance para evitar a existência de um mercado. Curiosamente, é composto por malta que anda sempre com o punk na ponta da língua mas devem sofrer de dislexia, o slogan que surge na literatura é "fuck the system" mas eles leram "suck the system", o que apesar de ser similar não é o mesmo.

É um sistema que vive de costas voltas para o mercado porque tem acesso aos fundos do estado, que vai pagando contas.
in "Amadora BD na Intersecção da Cultura e da Politica em Portugal" 24 nov 2017

So far: so what?

Primeiro, aquilo da autenticidade: continuam tão agarrados ao $$$ como os tais do mercado, apenas o enrolam nas intenções. Podemos –vamos!- pregar-vos da cartilha DIY outro dia, mas ou milita, ou não. Mil e uma outras formas de o ser ao invés de se limitar a uma wanna-be editora como qualquer outra, ainda se o disfarçam copiosamente.

Contudo, em vez disso anda-se num discurso que só revela hipocrisia ou um grave problema de dissonância cognitiva.

O problema é que a Chili é vendida por alguns como sendo "independente" e "alternativa" quando não representa nada disso, para além de ajudar a denegrir editoras que o são de facto [e] consideram que outras pequenas editoras são "inferiores" porque precisam de ter lucro para investir e recuperar o capital investido.
in "Amadora BD na Intersecção da Cultura e da Politica em Portugal" 24 nov 2017

Não seremos tão perentórios a afirmar que a Chili consegue denegrir outras editoras, mas toca-nos da forma errada o discurso e talvez a keyword seja mesmo o "conseguir". Mea culpa pt2. de agendas e intenções: somos os primeiros a incentivar à apropriação da coisa pública, mas a nossa lógica é de infecção antes da cura. Na Chili a prática sobre a teoria tem sido a de subserviência a mais do mesmo: continuamos nos antípodas de BC em mercados mas de sítios diferentes ambos notamos a disparidade do "faz o que eu digo, não o que eu faço". O que nos trás ao segundo ponto: a prepotência de tentar controlar a narrativa.

Essa vantagem competitiva só é problemática porque em vez de ser usada para promover o mercado de BD nacional, é usada para o inverso: denegrir os autores ou editores não passam no teste de pureza chiliana que avalia o pensamento alternativo.
in "Amadora BD na Intersecção da Cultura e da Politica em Portugal" 24 nov 2017

Não o fazem, mas não vos será necessário um esforço imensurável para nos convencer que o gostariam de fazer. O nosso problema com a nomenklatura por comité central e economia planeada? Bem, está na própria descrição. Se não vos chega, Bruno poupou-nos a prosa:

Quando se reduz um evento a uma visão limitada de um universo vasto, como é a banda desenhada, ignorando a maioria dos intervenientes, não tendo sequer a vantagem apresentar novas correntes ou tendências, aquilo que se está a instituir é efectivamente um festival de amigos para amigos, os tais que partilham um "pensamento" que apesar de se cognominar de "alternativo" se quer único, devido à superioridade intelectual que não possui quem o promove, alheio a qualquer relevância cultural, para além da visão míope dos promotores do dito evento.
in "Amadora BD na Intersecção da Cultura e da Politica em Portugal" 24 nov 2017

Novamente nesse ponto estamos no canto de Bruno Campos e reforçamos o nosso problema com a ortodoxia do comité central.

O facto de a CCC ganhar prémios não era um problema, caso os prémios fossem atribuídos por mérito, algo já chegou a acontecer com Nunsky. O que os torna problemáticos é serem o reflexo da chilificação do festival, o qual está cada vez mais de costas viradas para o mercado e para o público, para além de ter sido obtidos graças ao nepotismo da política de filhos e enteados institucionalizada por Nelson Dona nas normas dos prémios.
in "Amadora BD na Intersecção da Cultura e da Politica em Portugal" 24 nov 2017

Apesar de extremamente crédulo da benevolência dos mercados, a abordagem de BC é pragmática. Se nos querem discutir essa conclusão, primeiro rebatam-lhe esta:

Todos os fundos que foram gastos pela Bedeteca, seja no tempo de Cotrim seja no de Rosa Barreto, não serviram para construir qualquer infraestrutura que perdurasse. A morte lenta daquele serviço só foi sentida por aqueles que lá trabalhavam ou colaboravam, uma vez que o público não se importou muito com o seu desaparecimento.
in "Amadora BD na Intersecção da Cultura e da Politica em Portugal" 24 nov 2017

E por "público" contabilizem os gentios, não os peeps que respiram bd.

BC insiste na função de mercados como resposta ao catering de gostos, nós alertamos aos riscos de gatekeepers – mercados inclusive, mas ortodoxia arsty igualmente. Escolhemos viver fora do mercado e não encontramos virtudes na sua determinação arbitrária de gostos, mas na sua versão popular pelo menos são uma escolha. Na sua versão autoritária, não. Com a agravante tão ou mais prejudicial que nos obriga a torcer por de Campos: o mercado seca as alternativas com base no gosto da maioria, por mais rasteira que seja. A nomenklatura é elitista e dogmática, imune à vontade da maioria: do topo da sua torre de marfim mata as alternativas com intenção deliberada. Não é acidente que o supramencionado underground comix surge nos States, não na ex-URSS.

Julgo que terminamos as analogias políticas por aqui.

Num mercado pequeno em que a produção se encontra limitada a pequenas editoras com pouco capital para investir, eventos municipais como o AmadoraBD são fundamentais para potencializar o trabalhos dos autores e editores. Mas também podem ser um obstáculo que impede o seu desenvolvimento, caso seja tomada a opção de utilizar meio milhão de euros para promover aquilo que só meia dúzia aprecia.
in "Amadora BD na Intersecção da Cultura e da Politica em Portugal" 24 nov 2017

Nem BC nem Costa Moura são donos da razão, e o meio milhão deve ser utilizado naquilo que, independentemente de quantos apreciam no presente, mais levará a fazer/haver no futuro - ie: aquilo que é sustentável, e esta pode ser a nossa veia veggie a falar mas o que os muitos querem hoje não garante o seu amanhã. Como lá se chega, depende da abordagem, e esta pode ser festa popular ou arte culta. Da nossa parte, já notámos na última ronda que fizemos nestes tópicos que nos aproximarmos em sensibilidades da Chili, mas é entre as abordagens pragmáticas que mais tendências e variantes de BD têm de facto tido a sua oportunidade de escapar à ditadura das maiorias, mesmo quando essas estão em minoria.

Se OS POSITIVOS quisessem jogar pelas regras do jogo teriam o seu lugar, ou, pelo menos, a sua oportunidade entre os demais. O próprio BC, fanboy mode, não levanta entraves ao diferente:

A presença de autores independentes/alternativos não é um problema se for um contributo para um festival diversificado, contudo não é isso que se tem vindo a verificar.
in "Amadora BD na Intersecção da Cultura e da Politica em Portugal" 24 nov 2017

Já o comité central não admitirá –se o poder evitar- alternativas à alternativa: os P+ nunca poderiam ser.

Como nunca foi um movimento de autores mas de críticos, o mercado e os problemas que o afectam estão ausentes da retórica chiliana. Foi criado um conceito abstracto, posteriormente são seleccionados autores para serem editados como representantes de um movimentos, esquecendo aqueles não encaixavam nesse conceito e nos critérios estilísticos propostos, ou por outros motivos.
in "Amadora BD na Intersecção da Cultura e da Politica em Portugal" 24 nov 2017

Perguntem-nos por quem estamos?


III


ON WITH THE SHOW
"It's all good, party-people: não se chateiem"

Antes e sobretudo, falamos de um festival de BD, who gives a flying fuck? Not this punk. Ressalva feita,

Não cremos em objecções de maior à persecução de visões promotoras, em última análise depende sempre da dita, não da originalidade do mecanismo em si: não se questiona o promover, mas o que promover - e nem chegámos ao como promover. Kuddos aos comissários de exposição por terem uma visão, pior seria se não tivessem nenhuma. Se essa passa pela "a presença de autores desconhecidos" ou "a exposição dos livros", ou ioga rítmica –inventámos- é da estratégia dos ditos e à sua responsabilidade. Mas recuperamos crítica feita à laia de advertência: além de sustentada, a estratégia deve ser sustentável – pior será se não o for. Pior e mais polémica só a evidência que o autor traça:

Na Amadora cada ano que passa se torna mais evidente que a banda desenhada serve de desculpa para promover a visão dos comissários quando o que deveria existir era uma utilização destes recursos para promover a BD.
in "Amadora BD na Intersecção da Cultura e da Politica em Portugal" 24 nov 2017

Apontam-lhes uma incompatibilidade entre a visão dos comissários, por um lado, e a promoção da BD por outro. A haver uma objecção tão sentida, é-nos legítimo supor das partes visadas o rebate da afirmação anterior, o seu silêncio seria gritante.


Jesus. Kant.

não fui eu que o disse

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novelas gráficas

Perdoem-nos a confissão.

O debate que o Público conseguiu (inadvertidamente) causar entre a comunidade de interessados, quando optou pela designação de "novela gráfica" para a sua colecção de BD iniciada há dois anos, passou-nos ao lado: o termo era-nos tão decalcado de uma tradução literal estrangeira como as que encontramos diversas vezes naquela outra língua irmã –o brasileiro -, que arrumámos o tópico numa gaveta mental a que chamamos de "preciosismos dos cómicos" - esta é, afinal, uma comunidade muito dada a discussões de hermenêutica.

Há data vários textos fizeram o seu caminho ora defendendo, ora contradizendo a opção feita, e recomendamos a leitura das justificações dadas pelos autores que em um momento ou outro foram convidados a prefaciar a coleção: são fáceis de encontrar online e mesmo se fazemos depender a importância dos seus dizeres exclusivamente dessa associação, é um critério de selecção que pelo menos possui uma relação directa ao objecto e exclui as milhentas opiniões do Facebook – as quais, por razões técnicas, não rezará a História (*).

* Azar.

Pessoalmente, tornou-se uma expressão muda –"invisível" ?- para nós: por força do hábito – e somos criatura de hábitos vincados – o graphic novel precede a novel novela gráfica a ponto de nunca termos feito uso dessa última: quando a lemos ocorre um qualquer automatismo que a reverte à designação original antes mesmo de a processarmos. Somando a esse auto-correct o viver numa bolha pessoal – vide criatura de hábitos –, qualquer interação com terceiros sobre o tópico faz-se sobre a designação geral de "bd", ou quando muito, excepcionalmente, de "ban-da-de-se-nha-da" – assim, alongada e a desfalecer de cansaço pelo final pelo que raramente nos merece o esforço. "BD" para os amigos, momentos constrangedores exigem um "banda desenhada" desnecessariamente mais categórico, simplesmente "o livro" se a intimidade o permite: e desse modo vivemos os últimos dois anos protegidos do uso daquela expressão.

Até hoje.

Não seguimos a coleção assiduamente: a primeira série é talvez a mais completa mas longe de o ser, da segunda série devemos ter talvez dois volumes se tanto, desta terceira vamos no nosso quarto – contabilidade não confirmada mas é como a sentimos. Temos pois o hábito –isso- de pedir a dedo o livro –tu que nos lês: somos íntimos- que queremos, e no acto de o fazer ouvimos hoje pela primeira vez alguém nos replicar em alta voz a famigerada tradução.

Até um "banda desenhada" com um longo "aaaaaaaa" a morrer no fim de uma língua desmaiada no canto da boca e baba langorosamente a escorrer, os olhos revirados e a merecer um chapadão na cara para lhe sacudir o torpor teria sido menos estranho.

Por um lado, notamos o aspecto positivo da clarificação que se sentiram na necessidade de fazer: porque o Público publica tanta banda desenhada (*), é agora preciso ser explícito na peça que queremos.

(*) Aparentemente, o Público também publica uma série de super-heróis em collans mas não poderemos precisar: se a conjugação "novela gráfica" nos é invisível, imaginem a nossa capacidade de retenção da existência de uma série dedicada ao spandex.

Um bom momento para a bd na frente livreira - contrariamente a elitismos como os que descobrimos por via do Isabelinho, achamos que há espaço para todos, desde que não se confundam 14 sep 2017. Se o povo quer fantasias homo-eróticas, há que dar.

Por outro lado, para se evitar a confusão anterior, perguntam-nos se queríamos o spandex-em-collans, ou, "a novela gráfica".

Oy?!

Anjos morreram no Céu, e se não morreram, deviam. Hell, dêem-me uma machine-gun e vejam-me a metralhá-los numa orgia de violência: este já não é um mundo que mereça seres graciosos.

"Que caralho ‘tá-me este gaijo a falar...?!" Milésimos de segundos que pareceram uma eternidade –vide: mentalmente, estava no Céu a massacrar seres alados entre gargalhadas maliciosas de quem nitidamente acabara de ceder a uma espiral de demência. Havia ouvido pela primeira vez em uso corrente esse novo termo, destinado a criar barreiras entre mim e qualquer interlocutor que nos fale de BD nesses modos.

É de conhecimento geral a razão de ser por detrás da origem dos graphic novels, uma associação de ideias se perdeu na tradução – porque esta não se perdeu no caminho.

São novelas, e os gráficos parecem-nos evidentes. Wha-?!

Nesse tópico, outra designação que nos é "muda" e já tivemos oportunidade de o estranhar no passado é, estranhamente, "OS POSITIVOS" (*).

* ou P+, ambas sequências de caracteres que por hábito interpretamos como símbolos visuais sem som associável, não como palavras a ler.

Nunca os chamamos pelo nome, e nas conversas são simplesmente denominados de "a tua cena". Os poucos que os enunciam denotam uma certa distância no fabrico espaço-temporal, e os que notam a hesitação no olhar enquanto tento perceber a que se referem rapidamente acrescentam "a tua bd".

Também aqui queremos declarar uma nova distinção – questões de hermenêutica, compreendam.

OS POSITIVOS não são mais "bd".

Os cómicos tiveram a sua oportunidade de os incluir na bagagem nacional de banda desenhada – e podem dizê-lo em alta voz assim mesmo, por extenso.

  A "cena" é agora o zine. Repetimos: OS POSITIVOS na sua encarnação actual não são uma banda desenhada, são um zine de banda desenhada, um zine com banda desenhada, um zine sobre banda desenhada, e sobretudo, um zine de-com-sobre bd e outras merdas – e esse "e" é parte constituinte a merecer imensa consideração.

Fuck me se vamos viver num mesmo mundo que se confunde com novelas gráficas.

weird facts

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chronicles of a bored bourgeoisie

I didn’t make it to Beja this year.

The rest of this text should be read on the knowledge it’s a fucking hot day out there and I’m chilling on my balcony sipping cold ones and putting my feet up ever so often…



wonder what’s new in tha world of comics…? a doctoral dissertation in graphic novel form? sure, why not? I’m game for that...

I’m not into music: I’m into punk and hip-hop. I’m into music with a message. If it ain’t saying shit, I’m not listening.

My preferences are definitely anchored around any angry guy with a grudge, a mic, and a heavy beat. But while I do tend to favor the industrial-hardcore-metal cadence of the call to arms, I can easily slip into an entire afternoon of reggae or sing along to Pete Seeger or Billy Bragg. And I like my comics tha same way. I have guilty pleasures, I’ll even read stuff I don’t particularly like for tha sake of going thru the motions, but mostly I’m into the message, the meaning, tha means to an end. If it doesn’t prompt me to act, I’m not coming back to it.

Now...:

I’m not into comics, I’m into the message, and I’m not getting jack shit to read.

I’m bored with comics. They ain’t even down time anymore, they’re just dumb time. I still stick with them ‘cuz a) the object thingy, might as well go-ahead finish decorating those shelves now; b) …yeah, that’s it, no other reason, really.

My particular tastes are based on the 60’s underground comix, and all those 90’s alternative comics added the twist I can relate to. But for a world in turmoil, I don’t think the medium is putting out how it should. Nowadays, I get more out of editorial cartoons than your average full-length graphic-novel-thingy. And don’t get me started on the all artsy-fartsy-piece-of-crap---.

So Beja made no sense to me this time around and I don’t think it will for a long while, if ever again: I just can’t relate to the celebration of a medium outside of a message (*).

* I will, however, get in the habit of going to Lousã if that sticks around long enough.

Well, any-ho, thank you web! You made it easy to follow up on whatever with little care and without movin’ my increasingly lazy bourgeoisie ass. I know I should be out there acting out, this world is in dire need of the wrong kind of scum like me to pend the balance back in the right way again, but I can’t be bother: way too bored right now (**).

** Well, not really "bored", more like "off": something's definitely off.

I still have a need for comics, but… for fuck’s sake: that’s why I draw my own!

Later, dudes, gotta go refill: hot-hot day. Here’s the mandatory “me in Beja” photo op we do every time:


Yeah so I didn’t go, but,here’s me, and I’m from Beja, so, still counts ;)

summer project

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"DÁ-ME LÁ 500 PAUS E FAZ-ME UM LIVRO!"

( sei o que estão a pensar / nenhuma relação / continuando... )


Tens uma editora e estás farto de publicar os teus amigos? Publica-nos!

( nunca seremos amigos: pinky-promise! )

Os livros que editas entediam-te? Dás por ti a publicar apenas para marcar passo e cumprir compromissos? Mal consegues reunir a vontade necessária para yet again correr a rotina dos press releases e puff pieces da imprensa? Só editas tugas que te fazem esquecer o que estavas a ler ainda antes de terminares a leitura ou estranjas desconhecidos entre os ditos tugas porque estes têm dificuldades de retenção nas suas leituras? Começaste a pensar com os teus botões que original e interessante são duas coisas muito diferentes?

És um editor de sucesso, com uma carreira reputada na banda desenhada alternativa, repleta de marcos significativos e mesmo alguns prémios e estás entre os melhores no que fazes, mas tudo o que fazes é inconsequente para além dos talentos locais? Lembras-te com alguma nostalgia de quando a edição de um livro era razão de nervosismo e obrigava-te a sair da tua zona de conforto?

Estás pronto para um desafio que te force ao desconhecido e duvidoso?

Tens o guito?

Então este concurso é para ti! Participa e talvez possas editar OS POSITIVOS!

Open call à edição dOS POSITIVOS:

A edição de um certo tipo de livros é-nos hoje questionável à luz das novas tecnologias. Triplamente questionável no caso dos P+ quando estes já abraçaram o digital em toda a sua plenitude e simultaneamente ainda transcorrem no fanzine impresso entre os interregnos necessários ao acervo.

Porque então publicar o livro?

Principalmente: pelo pulhismo de partilhar o shelf space com livro alheio, ocasião que não deixaremos de aproveitar para distorcer experiências, expectativas e convenções, P+ style. Queremos gerar abjecções num público incauto dissimulados entre os demais, e não desperdiçaremos a oportunidade de fazer escola por tão baixo preço de admissão à cronografia da BD nacional de modo mais sentido que o mero artsy-fartsy chic-shock, exercício gratuito ou manifesto filosófico que se escusa ao quotidiano onde a intencionalidade do choque os rende peças de complacência tolerada fashion-cool a apropriar pela intelligentsia do turno. Nós seremos bastante mais penosos nas nossas ofensas por via de propósitos questionáveis e dubiedade de sentidos. A BD precisa de nós!

Em menor grau, pelas óbvias razões de vaidade pessoal que nos dispensamos de explorar ademais.

What’s in it for u? Deus sabe. O que queremos: as nossas cópias de cortesia para entregar entre os suspeitos do costume. Para quando: difícil de dizer, primeiro convence-nos que tens projecto para OS POSITIVOS nas suas nuances (*) e pegamos daí.

No rush, take thy time: we're here for the long run & just starting tha have fun.

(*) Punk doesn’t mean a drunk skinhead shouting shit. To me, it’s music that has a core that’s very smart and a surface that’s stupid enough that only a smart person will realize how smart it is. It’s crude music that’s made by people who are much smarter than the crudity implies.
Jeffrey Lewis

punx & comics

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comics in portugal

Somos frontais na função que atribuímos à BD. Entre o “humor & depressão” que nos define e o nosso mission statement de “banda desenhada desalinhada desdenhada de propaganda punk veggie anti-nazi” não podíamos ser mais explícitos ao que vimos.

Brinco. Entre o pessoal e o militante, OS POSITIVOS não são de consumo fácil. Temos pena.

Sobre o carácter pessoal da nossa BD, não nos demoramos. Citando o Nico no topo dos seus 20 mil dias: a melhor música é aquela que contém a promessa de um dia nos ensinar a matar dragões.

Nick Cave ver no youtube

the song is heroic because the song confronts death \ the song is immortal and bravely stares down our own extinction \ the song immerges from the spiritual world with a true message \ “one day, I will tell you how to slay the dragon"

A melhor BD é, para nós, aquela que nos inspira a mesma promessa.

Sobre o militante, e não querendo ser fascistóides da BD (reler o mission statement de dois segundos atrás...) somos forçados a gritar lobo e opinar grotescamente num só sentido quando meio mundo de ovelhinhas adormecidas insiste em sonambular no sentido oposto.

Citamos Altarriba, pai ou filho:

"A Arte de Voar"

Quem nos conhece sabe que a nossa catilinária a um certo tipo de bd resulta unicamente da sua "sorte" nacional. Retornemos à citação inicial:

"Comics as a Nexus of Cultures: Essays on the Interplay of Media, Disciplines and International Perspectives". Censuramos para não individualizar & obrigar os mais mesquinhos a pesquisar.

Se vos parece que estamos a martelar velhas diatribes, é porque estamos.

Não nos vamos repetir, o aziúme continuará a passar despercebido. Comparem ao sempre válido blargh original, circa 2011:

"A leitura menos óbvia da importância da banda desenhada enquanto cultura popular conduz ao axioma que agora expomos: se não for lida, não é banda desenhada. A aparente simplicidade deste postulado poderá nesta circunstância provocar reacções objectas em espíritos de simplicidade equiparada, mas reforço que essa equiparação é falsa e que a hipótese é mais profunda que esses juízos. Uma abordagem completa da banda desenhada enquanto domínio de estudo não se pode limitar ao objecto em si apenas mas deve imperativamente incluir o leitor e compreender quaisquer mecanismos desencadeados externos ao objecto. E novamente deparamo-nos frente a uma lacuna entre a banda desenhada de autor e BD, que remove a primeira da esfera da segunda.

O que nos aflige não é nem nunca foi o sintoma, e sim a fatalidade subsequente. Todos viram o óbvio, mas o detalhe ainda escapa aos demais

chronicles of a bored bourgeoisie

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sintomático

Ossos do ofício: estamos obrigados a estas coisas das webs e cenas, onde se inclui o driblar do page rank do Google. Por desvios pessoais e pela sanidade mental, onde podemos avacalhar, avacalhamos. O que nos leva a picar o ponto de tempos a tempos com a nossa singela sequência preferida de palavras chave: "banda desenhada alternativa". E com surpresa nossa, no topo da pesquisa (primeiro da lista!) o google remete-nos para, nada mais, nada menos, a DIREÇÃO-GERAL DO PATRIMÓNIO CULTURAL. Shit-u-not! E com o título "Robert crumb - A Banda Desenhada alternativa americana dos anos 70".


Ora... A relevância que o Google dá a este artigo é-nos por demais interessante a tantos níveis: o humor geek das intrawebs e afins; a especificidade deste género de BD em particular; mas sobretudo, porque este artigo é destacado sobre a verborreia acumulada de largas centenas de horas ao longo de dezenas de anos de dizeres e escritos por tantos autores, divulgadores e críticos nacionais sobre a dita. Considerando a sua data de publicação, no espaço de um mês da sua tão breve existência * suplantou todos os envangelhos, manifestos e diatribes dos nossos comprades dispersos pela web-ó-esfera nacional.

Numa altura que neste "campo artístico" é palpável um "crescimento (...) exponencial nas últimas décadas em todos os aspectos", (ah, pesquisem... serviço público right here, de nada ó!!) será sintomático que esta é a melhor proposta que o algoritmo do google consegue desenterrar sobre o tema?

Se a ironia vos escapa, leiam o artigo:

http://www.patrimoniocultural.pt/pt/news/presentations/noticia-demonstracao-crumb/

Primeiro, resultado, do, google.

E não se perca igualmente a ironia de estarmos a falar da Direção-Geral do Património Cultural. Hey, o país é teu, não olhem para mim: life's just too good.

* Ooops. Uma actualização necessária sobre este post...: MEA CULPA! Antes: OS POSITIVOS não são uma fonte de informação fidedigna, mas sim satírica e on-a-mission: por isso deturpamos factos, noblesse oblige. Mas neste caso foi mesmo desleixo da nossa parte.








Lemos o “2014” da publicação original do artigo e não tivemos qualquer dificuldade no entendimento dessa informação... & now tha funny/sad part: esquecemo-nos monumentalmente que já estamos em 2015. Totalmente. Estratosfericamente abstraídos, distraídos, desligados desse detalhe. Três meses dentro do ano e ainda não o interiorizamos de todo: I’m so not here right now...

My bad.

OS POSITIVOS: humor, seguido de depressão.

cómicos nacionais

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tu sei la donna della mia vita, lei la donna dei miei sogni

A não ser que sejas um teen com menos de 15 anos, provavelmente reconheces a coisa pelo seu título original: “Tu és a mulher da minha vida, ela a mulher dos meus sonhos”.


Pedro Brito e João Fazenda

Mea culpa / disclaimer / praises for: este é um livro que nos acompanha na sua ausência desde que foi publicado pela primeira vez, e aproveitámos o embalo da sua reedição internacional para colmatar a sua carência de longa data na nossa biblioteca.

Primeiro e mais que tudo, pelo interesse que lhe atribuímos a nível pessoal, obviamente pela escolha inteligente do título que nos acossa desde que o conhecemos, ainda que a natureza desse desassossego não seja da mesma ordem da narrada no livro.

Segundo, porque foi para nós uma das poucas leituras nacionais que na época nos retribuiu um ensejo de temas e teimas que ainda hoje escasseiam entre os cómicos da casa, uma das raras surpresas na bd nacional que nos recordamos de ler na idade certa.

Apesar do agrado e ainda que o tivéssemos sempre na lista dos inevitáveis nunca nos motivámos para o adquirir. Até agora. E embalados no revivalismo da ocasião, fizemos também algo que já não fazíamos há mais de uma década... relemos um livro, o dito.

Os “livros inevitáveis” dispensam nova leitura. São-me peças de troféu a acumular por motivos de egocentrismo frívolo, uma indulgência que o digital despreza. Mas o toque, senhores, o toque... Trouxemos um “3ª edição, julho de 2002”, que acusa uma curvatura insinuada de quem já tem todos esses anos de estante pressionado entre os seus pares. E o papel, algo áspero e gemado em novo amadurou num apalpe seco, crespo... E delicia das delicias, perfeita vitima do acaso, o sol incidia diretamente sobre as páginas reforçando a sequidão das mesmas... improvável de prever e impossível de resistir. Marchou no momento. E consumado o acto, a relação manteve-se.

Entre a surpresa das partes esquecidas e as que envelheceram menos bem (as meta-referências) 1, o único senão de maior que acusamos permanece ainda e sempre o invariável filtro poético nº 3 com o qual peneiram as bds, diluindo a força das suas histórias e o aperto que estas devem causar ao subordiná-las a um pretenso realismo por decalque de uma naturalidade imprópria ao formato. Esse véu romantiza o que deve humanizar, aflição que atrapalha particularmente os nossos argumentistas que procuram alcançar na sua escrita um “naturalismo” que em boa verdade o meio não exige, diríamos mesmo que o desaconselha: a concordância ao real pode mesmo impor a sua distorção - contam as intenções senhores, as intenções, não o maneirismo das mesmas.

Exemplo:

- Mas nem duvido que seja frígida!
- Frígida?! A frigidez feminina é muito relativa!
- Relativa?! Então?
- Não acredito na frigidez das mulheres. Sem contar, é claro, com os casos clínicos, o resto é pura incompetência dos homens.
- O quê?!
- É uma desculpa de mau pagador da parte dos homens. Dizem que as mulheres são frígidas, simplesmente para esconderem a sua incompetência na cama.
- Olha lá! De que lado é que tu estás?
- É verdade! O problema da nossa geração e das seguintes é que vemos demasiados filmes porno e ficamos com uma má ideia do que é realmente o sexo. Pensamos que para satisfazer uma mulher temos que nos pôr naquelas posições surreais, puramente fotográficas e que temos de ser autênticos martelos pneumáticos. Como é que as mulheres podem ser frígidas, se levarmos em conta dois importantes factores. Primeiro, têm vários pontos erógenos, enquanto que nós direcionamos tudo só para um ponto do nosso corpo... É claro que não nos aguentamos à jarda, e consequentemente, não as conseguimos satisfazer. Para além de que somos por vezes bem egoístas.

O mesmo exemplo, sem o filtro poético nº 3:

- Sabes... Acho que a Sofia é frígida.
- Come-a no cu. Ela gosta.

Por comparação a outros livros mais óbvios há uma atenuação clara no dramatismo prosaico, e a referência máxima que a todos ocorre – e que, por outras razões eludiu a nossa biblioteca igualmente por tanto tempo- será inevitavelmente o supra sumo das internacionalizações nacionais, “O Amor Infinito que te tenho e outras histórias”, cuja história principal que dá titulo ao livro nos está entranhada à essência: simplesmente não haveria POSITIVOS sem essa protensão 2.


Paulo Monteiro

Ao jogar no polo da abstração onde o primeiro investe em realismo, o hiato não podia ser mais notório.

Exemplo filtro nº 3:

- Rondarei todas as noites o teu prédio, depois de te levar a casa...
- Fumarei cigarros a fio até de madrugada, porque sei que nunca descerás as escadas para vir ter comigo.
- Respirar-te-ei ininterruptamente e sem repouso, sempre que estivermos juntos...
- Morderei os lábios para não te beijar...
- E ficarei distante e fechado sobre mim mesmo quando nada fizer sentido.
- Nos momentos menos dolorosos direi parvoíces e riremos todos...
- E ninguém saberá do amor infinito que te tenho.

O exemplo sem o filtro poético nº 3:

- Podes dar meia-volta? Tou danado prá foder!

Por contraponto, encontramos noutros meios formatos mais adequados aos que mais-querem o filtro nº3. Trouxemos este livro com o primeiro, e a comparação merece-nos a referência:

happy valentine’s day!

Footnotes:

1. Niiiga pliise: I’m tha champion up on this biiitch, don’t feel bad about it!
2. Protensão: técnica, baseada na aplicação controlada de forças, destinada a aumentar a resistência das estruturas. Confrontar: pretensão (1. Acto de pretender. 2. Direito que se julga ter a alguma coisa. 3. Exigência. 4. Vaidade, orgulho, presunção.) in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, sublinhado nosso...

With apologies aos autores, mas hey! há uns tantos gaijos que agora sabem que os vossos livros existem e antes não sabiam... De nada!

Bónus round:

OS POSITIVOS: na discrepância entre realismo e realidade.

Querem “fácil”, leiam patinhas.

pussy now

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