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coincidências? think not!

Não nos (pre)ocupam apenas os encontros de informação. Necessariamente esta existe em abundância num estado puro e caótico e a sua recolha exige uma correlação. Não nos (pre)ocupam apenas as correlações: necessariamente entre tamanha abundância elas estão destinadas a chocar vezes sem conta. Ocupa-nos sim a coincidência do momento em que essas correlações se fazem.

Sem o (pré), importava-nos o (pós).

I

No seguimento do registo de ontem e a propósito desse tema que se esgueirou nas nossas teses - utopias, ricos e pobres, século XIX, revoluções sociais, tippin’ points na evolução da sociedade, emprego, trabalho e lazer, badaban’ badabin’, tha works, num àparte ao monopólio da tecnologia e seus usos - deparamo-nos com esta passagem na leitura do Barzun - que queríamos ter terminado nas férias, adiámos para o natal, e entretanto uma primeira centena de páginas de investigação * meteu-se pelo caminho...:

"A população que sofria estas medidas de protecção era atacada noutra frente: uma multidão de reformadores políticos e económicos, que tinham todas as razões para reclamar da atenção pública."
in Barzun, "Da Alvorada à Decadência"

Mil e oitocentos, "medidas de protecção" à população, pânico, desemprego, violência anarquista, enforcamentos ** pelas 8h de trabalho, o "sentimento generalizado de que os empresários eram 'barões salteadores' e o governo das cidades *** uma 'máquina' gerida por patrões vorazes", financeiros contra o homem comum, jornalistas e o status quo, e a descrição da obra de um desses:

"O Cenário é Boston, e a paz e a prosperidade reinam ali e por toda a América graças ao socialismo de estado, embora não sob esse nome. O dinheiro é desconhecido; há cartões de crédito, que dão a todos o direito a uma grande variedade de bens nos armazéns nacionais. A quota de cada um tem limites, mas é generosa para todos excepto os insensatamente extravagantes, porque a eliminação do desperdício causado pela concorrência produz abundância."

"Daí não existir qualquer ansiedade entre os pobres, nenhuma hostilidade para com os ricos; a distinção desapareceu. Mas toda a gente tem que trabalhar quatro horas por dia até à idade de 45 anos. O resto é lazer, para o qual são proporcionadas as habituais ocupações generosas."
in Barzun, "Da Alvorada à Decadência"

in Wikipedia: "Looking Backward: 2000–1887" is a utopian science fiction novel by Edward Bellamy, a journalist and writer from Chicopee Falls, Massachusetts; it was first published in 1888.

* "Investigação" como em "inundar de conteúdos OS POSITIVOS para os recentrar nos resultados de pequisas em companhias mais apropriadas". ** Não cobrimos os enforcamentos de Chicago mas passamos pelos de Nova York também nos 1890 aqui. *** Actualizado à nossa realidade: aquilo do local > digital > proximidade: nichos. E aquele poema, logo hoje: a rapar frio 'miguinhos? Querem sentir o sol, querem cheirar as flores?... e também querem o resto?

O “Alvorada à Decadência” não é de perto ou longe um livro muito preocupado com a dimensão económica da vida no ocidente: o seu foco é cultura. A título de exemplo, Marx surge umas poucas vezes mas não muitas e apenas o necessário para situar os restantes pensadores de época, subentendendo-se sempre um distanciamento quando os seus escritos se afastam da temática ciência/cultura/sociedade e assumem uma postura declaradamente política. Típico:

“O caso de Karl Marx é típico. Enfatuado com as glórias da ciência, persuadiu-se a si e aos seus milhões de seguidores dentro e fora da União Soviética de que tinha por fim formulado a mecânica da história e podia predizer o futuro cientificamente. Podemos encontrar Marx e Lenine no, aliás admirável, Dicionary of Scientific Biography. Foram incluídos sob pressão, não por livre escolha dos editores.”

Ao contrário de Marx não temos o arrojo de julgar que conseguimos prever o futuro de forma científica mas desconfiamos que temos uma certa intuição para este. Pelo que, neste momento a despropósito encontrar a mesma coincidência de temas que nos ocupam noutras frentes: enter WTF. Note-se a timeline: o “Alvorara à Decadência” entra-nos no verão, fazemos um timeout nele para outros assuntos, e regressamos no mesmo ponto em que tropeça com as nossas teses onde nada o acusaria ou deixaria prever.

E o próprio título do livro, nesta fase, tem um significado acrescido. WTF indeed.

Mas, u guys know how it goes... Há mais!

II

Por pirraça à academia decidimos construir as nossas teses apenas do que pudéssemos recolher da espuma dos dias – ie: pop e press- por oposição à literatura obrigatória de quaisquer autores estabelecidos no currículo de cadeiras dadas ao minímo da dignidade.

A nossa posição totalmente vincada de resquícios de anti-elitismo à erudição: seres providos da capacidade de raciocínio devem conseguir alcançar conclusões capazes sobre o funcionamento da sua sociedade através da observação e análise e sem necessidade de complexas suposições teóricas. Podemos estar errados, mas seria a primeira vez: nunca aconteceu - aquilo da observação e do raciocínio antes das conclusões...

Totalmente a despropósito e apesar da óbvia intencionalidade de reunir todo o aparato substantivo pelas mais efémeras das fontes, impossíveis de planear ou prever, estranhamente estes temas insistem em retornar nos lugares e momentos mais improváveis. Case in point, igualmente ontem -

De um breve apanhado de notícias semanais no TCJ, com um muito igualmente generoso título - ainda que esse se refira a outra peça nessa notícia - "It’s in the Headline". Última entrada, quase a ser ignorada, só o pequeno parágrafo que se segue e um excerto para o qual remete:

Michael Dooley writes about the cartoons from Paul Krassner’s satirical journal, The Realist, the subject of a new collection, and republishes a 2000 profile of Krassner.
in "It’s in the Headline" 12 dez 2016
Among the countless others for whom Krassner has been an important inspiration, the strangest may have been Andrew Breitbart, despite their diametrically opposite worldviews. Breitbart is the founder of Breitbart News, notorious for using fake news sites to source their dishonest and deceptive “journalism.” When Krassner interviewed Breitbart for Playboy in 2011, he said he admired Krassner’s “trailblazing and causing mischief and mirth and effecting the type of political and social change you were attempting.”
in "It’s in the Headline" 12 dez 2016

Livro editado pela Fantagraphics e em arquivo online aqui - porque, enfim, só os nossos artsy-fartsy nacionais têm fobia à partilha. A citação cumpre e seguimos a ligação - como ignorar o cruzamento de referências: nazis, cartoons, jornais satíricos, notícias falsas e jornalismo desonesto, mudanças políticas e sociais? Quase que poderíamos dizer que o TCJ nos tenta de propósito. E do artigo no qual aterramos?

"The truth is vastly overrated."

Tendo já aqui anunciado que entramos agora na problemática da AUTENTICIDADE na tecnologia, imprensa, arte e punx. Não nos queremos iludir mas, quando foi a última vez que se interrogaram sobre autenticidade no âmbito dos comics? Não cremos ser originais na interrogação, mas, realisticamente, quando foi a última vez? Poucos dias depois de o fazermos, o TCJ delivers. Spooky? Não - estamos habituados. E continua:

That’s how I began my feature for the AIGA Journal of Graphic Design’s “Truth” issue back in the year 2000. And now post-truth, fake news and other euphemisms for lies have become accepted standard operating procedure in our current cultural and political climate.
in "Paul Krassner’s Fake News and the Power of Positive Hoaxing" 10 dez 2016

Não é só o TCJ nos presentear com esta informação, é também a volta imensa que foi necessário para o fazer: acompanhem o circuito sff. Recupera um artigo de terceiros, este remete para o original de 2000, impresso em papel mas entretanto digitalizado -e inserir insulto aos artsy-farsty incapazes de publicar a porra de um PDF em serviço mínimo-, e publicado online em 2007 - e republicado no dia 10 deste mês presente ano. Para nos chegar, saltou de 2000 para 2007 para 2016. Há um padrão nesta lógica que vcs já começam também a reconhecer: não é a primeira vez que nos remetem para conteúdos idos, e com o ardil das reedições.

E que informação é essa que se esgueirou até nós por vias tão retorcidas? Da intro dessa peça:

"The Realist‘s satiric spirit is still alive and thriving", [com referências ao] Charlie Hebdo "link[ing] that courageous publication with The Realist’s “often scathingly vulgar and uncompromisingly offensive… and hey, hilariously funny” texts and ‘toons".
in "Paul Krassner’s Fake News and the Power of Positive Hoaxing" 10 dez 2016

Não o procurámos, mas estamos sintonizados agora. De um deliciosamente intitulado "Reflections on the Art of the Put-on":

We should also consider the upside of lying. In essence, a hoax is a lie. Skillfully executed, it can serve to subvert the authority of the mass media.
in "Reflections on the Art of the Put-on." 03 julho 2007, reprinted do AIGA Journal of Graphic Design, vol.18, no. 2, 2000.

Autenticidade (e falta dela), comics, cartoons, sátira, mass media? E logo agora? Hit me.

"People" magazine called Krassner the father of the underground press — but he demanded a blood test.

Underground: check.

“Culture jamming” is part of a tradition of guerrilla communication that includes Russian samizdat, John Heartfield's photomontages and Situationist détournement.

Check.

Krassner financed The Realist through his freelance income. Uncompromisingly independent, he's never accepted ads or conducted marketing surveys, on the grounds that he might be influenced about what he prints.

Publicação independente e $$$: check!

TV and stuuupid:

A Southerner, after seeing what he thought was a Negro man kissing a white woman on TV, wrote a letter threatening never to buy the sponsor's product again. So the sponsor flew an account executive to the man's home to prove that, due to faulty transmission at the local station, the leading man only appeared black. “In truth,” Krassner noted, “like so many leading men, he was colorless.”

-- check.

Self-loathing? Temos:

Although Life didn't print the letter, it did publish one that read, “Regarding your article on that filthy-mouthed, dope-taking, pinko-anarchist, pope-baiting yippie-lover: cancel my subscription immediately!” Krassner had written it himself.

Reconhecemos ainda duas ideias com quem tecemos a nossa propaganda punk-veggie anti-nazi:

Krassner never draws the line between truth and satire. “I don't want to take away from the reader the pleasure of discerning it for themselves”

Krassner is proud of what he considers an act of “preventive journalism”

E outras tantas. Como jornalismo e manipulação:

He's been making up material all his life. “But that was journalism,” he says.

E, em última análise, o mesmo objectivo:

To a large extent, Krassner has achieved his original goal: “To put myself out of business by helping to liberate communication by example.”

Last and least, enquanto nos debatemos com a abordagem que faremos à Arte -temos a ideia, por incrível que pareça falta-nos o pop e efémero para o demonstrar- a confirmação:

He's always considered his magazine to be art rather than commerce, and “as art, it can't be imitated.” (...) Krassner has amply fulfilled Picasso's definition of art as “the lie that makes people see the truth.”

Arte, jornalismo, autenticidade, cartoons, 2016, 2007, 2000, 1970, e novamente a 2016 reeditado pela Fantagraphics. Antes: 2016, 2015, 2014, 1890's, futuro por vir e o título do livro dentro do livro: "Looking Backward: 2000–1887 escrito em 1888? E cruzam-se no 2000 e 2000 e ambos ontem? Time travel, bitchis!

"Não não. imaginação do gaijo." Caro júri, e quando foi a última vez que enforcamentos foi uma cena no teu dia ou voltou a ser moda? Mas apenas hoje já lá vão dois, segue o terceiro.

Retirado do artigo em questão: magia? E não perguntes sobre o cartoon: enforcamento > investigações ao KKK > HUAC (House Un-American Activities Committee), comité designado para "investigate alleged disloyalty and subversive activities on the part of private citizens, public employees" e "those organizations suspected of having Communist ties". Coincidências. Sure.

III

Mais? E o ressurgimento dos comics com política quando já ninguém os achava capazes para tal?


"jump tp comments" s/comentários

Da semana passada, in "Seminário BD e Pensamento Político. Mesa-redonda Cibernética e Transhumanismo".

Kiddin', aqui não há relação. Estes arquivamos em "academia a quanto obrigas", nada a ver connosco. Para se entrelaçarem às nossas teses teriam de produzir e disseminar informação, mas desconfiamos que nada ficará além de mais uma alínea às actividades de um qualquer centro de estudo a fazer-se a avaliações póstumas.

Merda. Encaixámos um (pós).
Well, muthafucka!

u stall