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e se a televisão ganhou, quem perdeu?

Num muito curto período de tempo damos por nós a voltar à nossa arqui-inimiga de tempos idos: a televisão para as massas. Assim o geist nos dita e a peça que o nosso cronista favorito de sexta-feira nos publica (*) é sinal evidente que estamos sintonizados às sensibilidades da época – ou vice-versa.

* Registamos esse texto em último. Um teaser inicial: trata dos media e das hordas que lhe reagem.


I


Dizíamos que a tv pode ter ganho“pode”. A não ser tão definitivos em conclusões vamos pedir emprestado o título da primeira peça, “The web we may have lost”“talvez” então. Com a neutralidade web de fundo, um recap sentido desta como read-write, não apenas consumo passivo da novela - comparação nossa. Mashup:

The world-wide-web always scared the hell out of those who want to control what people consume and what their career is. The web was the equaliser. Anyone can publish, anyone can consume and learn. And there was no way to protect your content. People could download, share and remix. From a pure capitalist point of view this is anarchy. From a creativity point of view, it is heaven. I’ve always seen the web as my media to control. To pick what I want to consume and question it by comparing it. A channel for me to publish and be scrutinised by others. A read-write medium. The only one we have.

The web did me a lot of good, and it can do so for many others. But it can’t do that if it turns into Cable TV. Allowing ISPs to favour some traffic over others turns the web into a media of the elite. Maybe now is a wake-up call for people to understand that the web is a voice for them. A place for them to be a publisher instead of a consumer or repeater of other content in exchange of social media likes and upvotes.
in "The web we may have lost" 17 dez 2017

À geração que nos procede é-lhes difícil de compreender as possibilidades que estão em risco - mas quem viveu essa transição tem a responsabilidade de recordar os teens.

I didn’t have the money to buy books. But I was hungry to learn and I love reading.

I never went to college as we couldn’t afford it. I went online.

Before we had the web all the information you wanted to access meant you either had to pay or you had to put a lot of effort in. When I got access to the web this all changed. I found things to learn and I found mistakes I could help fix. I wasn’t tempted by thousands of streaming services giving me things to consume. I used the web as a read and write medium.
in "The web we may have lost" 17 dez 2017

Um pequeno destaque nosso àquilo do papel-e-digital, só porque sim e vem a propósito.

Editing and releasing is a lengthy process.

Using the web, I could publish world-wide, 24/7 and could access information as it happened. This was a huge change to going to the library or reading newspapers. A lot of the information I gathered that way was outdated before it even got published.
in "The web we may have lost" 17 dez 2017

There’s a flipside, of course.
Materials published in a slower, more editorial process tend to be of higher quality.

Time makes perfect: "é para isso que temos livros".

Mas voltando a tópico, a importância da web é dupla: i) o empowerment do utilizador, agora capaz de produzir os seus próprios conteúdos, distribuí-los livre de constrangimentos por gatekeepers indesejáveis, assim como aceder aos que lhe importa sem controlo ou necessidade de permissão dos anteriores, mas igualmente ii) a descoberta emancipação dos utilizadores permite-lhes as ferramentas para uma maior vigilância das narrativas oficiais.

I didn’t have to buy dozens of newspapers and check how they covered the same topic. I opened them one after the other and did my comparison online. I even got access to the source materials in news organisations. A web without Net Neutrality wouldn’t allow for that. I’d be fed the message of the publisher that paid the most to the ISP.
That’s shit. I might as well watch TV.
in "The web we may have lost" 17 dez 2017

Uma merda se tivermos que voltar à tv.
Algo que, nas américas, parece que de certa forma já resume a experiência web de muita pobre gente. Do coninhas que fez o que lhe pagam para fazer - ie, criar riqueza para ISPs:

- ...what riled me most about it is that the FCC thinks the main points of worry when it comes to the users of the web are:

  • Posting Pictures of food and animals;
  • Shopping;
  • Watching media-produced shows and movies
  • Be a fan of the same
  • Post Memes which are remixes of the same

And what scares me even more is the thought that they could be right.
in "The web we may have lost" 17 dez 2017

Mesmo entre os nossos cómicos foi raro encontrar um que mostrasse alguma preocupação com o controlo dos seus conteúdos no ano que agora acaba. Esperemos que no próximo se cheguem à frente, nas suas frentes:

I hope that people still care that the web flows, no matter for whom or what the stream carries. Let’s do more of the write part. I look forward to see who will do amazing things with this gift to humanity that is an open publication platform.
in "The web we may have lost" 17 dez 2017


II


We’re talking to media literacy educators

There’s been far too little attention paid to an older form of communication that still has deep influence in our democracy: that old-fashioned thing known as the television. Even in 2018, in the era of tablets and phones and Twitter and Facebook and Instagram, TV still affects us all. Knowing our TV is crucial to understanding ourselves.
in "Know thy TV" 19 dez 2017

Ainda a fazer as nossas rondas do ano que acaba, e uma achega à autenticidade, once again, agora no realm da tv.

In this age of media manipulation we are exploring ways that we can authenticate TV news clips, so the viewer knows they have not been altered.
in "Know thy TV" 19 dez 2017

Se a indústria do entretenimento -et al.- prossegue o seu assalto, meia web ainda não capitulou e faz uso de ferramentas digitais para lhe resistir. De um "conhece a tua televisão", uma educação possível em literacia pela boa gente dos arquivos: o virar à tv a agregação de dados que se tornaram comuns online.

TV news content remains both opaque and ephemeral.

The Internet Archive is also home to the TV News Archive, whose collection includes more than 1.4 million TV news shows, searchable by closed captions. We are working hard to turn our archives into data. We are applying machine learning to generate structured data in increasingly sophisticated ways, so that ultimately it will be possible not just to search captions for TV news, but also faces, talking points, identify who is speaking, and more. For example, in 2016 we launched an open source audio fingerprinting to track political ad airings across key media markets. In 2017, we developed curated collections of clips by key political and administration figures that can searched by keywords and phrases. We created Face-o-Matic, which tracks the faces as shown on cable TV news of President Donald Trump and the four top congressional leaders, and Third Eye, which extracts chyrons, or the lower thirds of TV screens, and turns them into downloadable data ready for analysis.
in "Know thy TV" 19 dez 2017


III


Regressados então a António Guerreiro e a sua crónica mais recente. O nosso/vosso take away às teses:

Da distinção entre público e multidão "pelo sociólogo Gabriel Tarde já no final do século XIX":

  • A multidão é um tipo de colectivo em que os seus membros estão presentes uns para os outros, num mesmo momento e num mesmo espaço, de tal modo que os processos de condicionamento e afectação se propagam de modo horizontal e bidirectional.
  • O público, esse, só pôde nascer depois da invenção da imprensa, quando se tornou possível transportar o pensamento à distância.

A característica principal dos media é a constituição de públicos, o poder de os gerar. Os membros do público estão separados uns dos outros e reagem isoladamente. O que os media de massa fazem é sincronizá-los, reunindo-os em torno de certos debates, acontecimentos e questões em que cada um é convidado a exprimir a sua posição, isto é, a situar-se em relação a esses problemas.
in "As virtudes da irritação" 22 dez 2017

Tratemos então da nossa relação ao problema e de fechar o circuito. Quando os mass media invadem o espaço da web - onde já existem horários prime para a publicação de tweets...:

Com a Internet e as redes sociais, o público passou a poder partilhar as suas reacções em tempo real, a manifestar as suas afectações e a entrar numa cadeia de condicionamentos emotivos porque se suprimiu a distância entre eu e o mundo, entre eu e os outros. Na verdade, a interacção cada vez mais estreita entre os media de massa e as redes virtuais fez com que os fenómenos de público se pareçam cada vez mais com fenómenos de multidão.
in "As virtudes da irritação" 22 dez 2017

.. e consequências desse esquematismo quando ameaça alastrar sem resistência:

A sociedade conformada pelos media de massa é uma sociedade irritada pelas mesmas coisas ao mesmo tempo, trabalhada pela simplificação e pelo esquematismo. Cada vez mais permeável à lógica das irritabilidades, sem instrumentos para dela se defender, a política tornou-se um espectáculo estéril e histérico de irritações que se sucedem ininterruptamente, voltada muito mais para a reacção do que para a acção.
in "As virtudes da irritação" 22 dez 2017

...a recordar-nos i) o ponto anterior de criar instrumentos para dela nos defendermos e ii) que com ou sem esses instrumentos, como antes da web - circa OS POSITIVOS 1997-xxx a circular em zines de papel-, já nos mantínhamos fora das multidões e guardávamos as nossas distâncias.

A essa distância pode-se chamar espaço de pensamento.
in "As virtudes da irritação" 22 dez 2017

OS POSITIVOS: a virtude de estarmos sempre irritados.


"the couch joke"

banalidades