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“por outro lado, há o Tédio”

As instituições funcionam penosamente. E o intolerável resultado é a repetição e a frustração. O tédio e a fadiga são poderosas forças históricas.

I

Ainda só arranhámos um par de centena de páginas do livro e é por demais óbvia a importância que o seu autor atribui ao Tédio como força motriz da evolução cultural, diversas vezes tecendo justificações à mudança na “oscilação normal das atitudes sociais – «o turbilhão do gosto» - ou, por outras palavras, à fatiga e ao tédio”. De época em época o germe da mudança escarnece da precedente mais por bocejo do que por qualquer outra razão. É um ciclo vicioso: primeiro (re)descobre-se o passado, de seguida repudia-se o mesmo quando a novidade esmorece no banal e se anseia novamente por outras originalidades. O exemplo nas artes é recorrente:

Com tanto conhecimento escrito e disseminado, e tantos (...) ansiosos a conjugarem esforços para produzirem o novo, era inevitável que a técnica e o estilo se transformassem gradualmente de tentativa bem sucedida e erro em fórmula infalível. (...) O resultado foi a frigidez. (...) Sabemos bem, trata-se de uma generalidade cultural – que o regresso ao passado é mais frutuoso a princípio, quando o ponto de interesse é a ideia, e não a técnica. À medida que o conhecimento se torna mais exacto, a originalidade declina; a perfeição aumenta à medida que a inspiração diminui.

Estamos longe de terminar estas leituras mas fizemos o impensável e espreitamos o ultimíssimo parágrafo do livro, no qual o autor retorna ao Tédio com uma previsão para um futuro plausível que se siga aos 500 anos de vida cultural do ocidente onde a sua obra nos deixa. O destaque é nosso:

“Ao fim de algum tempo (...) a mente ocidental viu-se atacada por uma praga: o Tédio. A investida foi tal que essas pessoas tão saciadas de entretenimento (...) exigiram uma reforma e finalmente impuseram-na do modo habitual: repetindo uma ideia. (...) Felizmente, eram maus imitadores (...) e a sua distorcida perspectiva sobre fontes fundou os alicerces da nossa nascente –ou talvez devesse dizer renascente- cultura. Reavivou o entusiasmo entre os jovens talentosos, que não paravam de proclamar a felicidade de estar vivo.”

Aos teens: quando deres por ti na sala de aula a desesperar de farto, congratula-te por dares assim o teu primeiro passo para revolucionares o mundo. O segundo consiste em aprenderes o que estás no livro à tua frente para mais depressa o poderes renegar.

II

A -yet again- problematização do crítico lembra-nos a primeira entrada que este tem no nosso livro. Na transição do artesão a artista, num capítulo que se chama justamente “Nasce o «artista»” (título delicioso, aspas e tudo...), diz-nos o Bar-that-zun num apontamento que em tudo recorda a nossa pequena alegoria da aldeia.

“a arte pela arte estava a despontar no horizonte. A apreciação estética é algo mais do que uma inclinação espontânea; não basta termos olho para a fidelidade da representação; devemos ser capazes de julgar e falar sobre estilo, técnica e originalidade. Esta exigência dá origem a uma figura pública: o crítico. O futuro profissional do crítica começa por ser apenas o dotado amante da arte que compara, vê os pontos positivos e elabora um vocabulário para as suas percepções. Ele e os da sua espécie não são teorizadores, mas conhecedores, e por fim, especialistas.”

Na nossa pequena fábula não escondemos o que pensamos dos especialistas, e sem o respectivo juízo de valor o autor chega a evidências análogas:

Esta melhoria de estatuto conduziu, em última análise, à separação entre os sabedores e os ignorantes

III

A propósito de artistas e críticos, uma outra entrada que por si só merece toda uma crónica desenvolta e lamentavelmente despachamos aqui sem poupa e circunstância. Palavras chave a reter e eventualmente um dia regurgitar ad-nauseam: “grupo de críticos” e “devoção fanática”. Ó delicia das ironias...:

“Por que razão será a fama uma deusa tão caprichosa? Em qualquer país, o seu favor depende da atenção por parte de um grupo de críticos em vez de outro, ou, por outro lado, da devoção fanática que vai para o homem certo no tempo certo. Um qualquer elemento na obra precisa de estar em total sintonia com uma qualquer inquietação do momento.”

O último parágrafo resume a fatídica condição da BD nacional e sua total incapacidade de granjear fama entre o público além dos dispensáveis fanáticos ou habituais grupo de críticos: obra alguma parece estar em sintonia com nenhuma inquietação do momento, limita-se à arte pela arte.

IV

E numa nota totalmente diferente agora:

“A escrita não é como a pintura, uma arte em que a habilidade mecânica pode enganar.”

O proverbial I told ya so!.


"no-no-no" all day long

Fim dos cómicos, os três comentários anteriores foram para “eles”. Agora “nós”.

V

Uma para o fight club: dos romanos ao feudalismo ao presente, mesmo quando não o procuramos intencionalmente estes calhamaços transpiram sempre algum nexo do andamento do mundo, impossível evitá-lo se o encararmos a uma distância suficiente:

“Quanto à organização social, as pessoas dividiam-se automaticamente em grupos de interesse relacionados com a sua área de residência ou profissão, ou, uma vez mais, com qualquer privilégio pessoal concebido com determinado propósito social. A nação já não existia; tinha sido suplantada por regiões muito mais pequenas, sensatamente estabelecidas com base em critérios de unidade económica, mais que linguística ou histórica.

E se pensam que estamos a falar de tempos idos, desenganem-se. A propósito de 1995, numa editação de 2003, lida em meados de 2016. Reza o resto deste excerto:

As suas actividades económicas estavam nas mãos dos executivos de grandes empresas, que entendiam o seu papel de modo semelhante aos seus antecessores medievais. O seu único objetivo de vida, santificado pela eficiência, era a acumulação de empresas – não de territórios- e o controlo dos mercados. O pretexto raramente era declarado, mas o jogo prosperou e o carácter dos jogadores guiava-se por um outro protótipo medieval: um nervosismo constante marcado por actos violentos e arbitrários contra pessoas e empresas. Despedimentos, resignações, estruturações massivas de trabalhadores e administrativos eram acontecimentos quotidianos. Não havendo derramamento de sangue visível, as feridas e angustias permaneciam veladas.”

Parece-nos pois, mais uma vez, que os hooligans e vândalos nestes tempos modernos cumprem a sua função histórica de dificultar a ligeireza com que se escondem essas feridas e angustias. Deixemos a responsabilidade de resolver o mundo a outros melhores do que nós, mas sejamos determinados em demonstrar que este precisa de resolução. Let us bite tha hand that feeds.

VI

Ainda “nós”. Já dizia Marsílio Ficino algures nos três tomos do seu “Livro da Vida”, sobre o “Cuidados Com a Saúde dos Estudantes”, “Como Prolongar a Vida” e “Como Viver de Acordo com os Céus”– e como assim parecemos eruditos mesmo se foi a primeira vez que descobrimos a sua obra-

“O aconselhamento dado aos trabalhadores intelectuais no “Livro da Vida” não está desactualizado: come e bebe com moderação, dorme bem, ri e sê alegre sempre que possas; não reprimas o desejo sexual, nem te entregues a ele excessivamente. Todos esses preceitos são necessários, afirma Ficino, porque os intelectuais são propensos à depressão (na altura chamada melancolia), «uma doença que destrói o corpo e a alma».

In short: humor & depressão.

- pai, o que era isto?
- rapaz, não me perguntes o que era: pergunta-te o que farás aqui!

- dad, u sound like u quoting classics...
- I might, I dunno: never did pay attention in class.

semana parada