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o estado da arte II

Journal for the Advancement of Portuguese Comics 2010-present, Summer, 2012, Issue 3

State of the Art: the estate of if

You and yo mamma Independent Scholar



Banda desenhada: sobre a apoteose que (ainda não) aconteceu.
O bradar da descoberta, análise e divulgação, a repetição a mil vozes e a braquimetropia predominante.




A questão que nos importa salientar, nestas referências a algumas estratégias de constituição de um campo autónomo, passa sobretudo pelas narrativas muitas vezes quase hagiográficas que muitos dos protagonistas da banda desenhada elaboram, numa espécie de biografização, mais do que dos intervenientes, do próprio género: chamar ao campo, sobrevalorizando-os, todos os indícios do entrecruzamento menosprezado da banda desenhada com a Arte (maiúscula — pelos elementos gráficos, pelos trajectos dos protagonistas, pelos conteúdos narrativos); e todas as expressões de uma cruzada heróica pelo reconhecimento social e cultural do género e dos seus criadores, justamente perante o domínio dessa arte maior que é a literatura.
Helena Santos, 1998
A cacofonia de notas que se excitam sobre banda desenhada, seus autores e eventos, reunidos e revistos na comodidade do nosso agregador de RSS à sexta manhã de cada semana soa-nos extraordinariamente monocórdica, numa total ausência de surpresas na sua redistribuição previsível de bits e bites com muito poucas variações dignas de nota entre o cabeçalho com que começam e a assinatura que as cerram. Em cada dada periodicidade, descobrimos sobre diferentes domínios os mesmos temas, conteúdos, e por vezes títulos.

Esta estranha consonância só quebra alguma homogeneidade por graça das predilecções de cada replicador, cuja aparente influencia faz cumprir algum poder editorial nos conteúdos retrucados, e, nesse processo, manter a promessa de um pasmo que permita a paixão da leitura. Infelizmente, uma adequada catalogação no Reader renderá impotente esse crer insubsistente já que raramente o monge muda de hábito.

Nesta fé, coabitam Franciscanos, Dominicanos, e igualmente agora Agostinianos -obviamente, considerando a pátria, só ordens mendicantes. Como em outras artes ou pseudo variações bastardas, os gostos de cada um ditam o trajecto subjectivo de entrega a estilos ou autores específicos. Se o alvoroço passageiro das camadas juvenis por multi-universos de mutantes homo-eróticos e femininos distorcidos não lhes permite construir um discurso blindado sobre as virtudes dos seus (super) heróis, os arraigados do Tintin e outras glórias -qualquer BD com ligeiro odor a mofo se torna imediato candidato ao estatuto de memorabilia nostálgica- souberam edificar uma extensa lógica auto-recursiva de proclamação das virtudes das suas preferências que se arriscam a confundir com a divinização da própria peça. Ainda no morganho de leitores e além da orbe de obreiros e dos mercantes, a terceira e mais recente espécie vinda ao adro anuncia serenamente um interesse analítico sobre a peça e estudo da sua constituição, numa dissecação formal segundo os moldes da academia. Tendo a universidade séculos de apuramento dos seus maneirismos e tradições, é chegada a vez da BD ser processada diante do seu jargão, esmiuçando sentidos, praticabilidades ou derivações das pequenas histórias de quadradinhos.

O currículo académico que se edifica em nome dos Cómicos é cada vez mais amplo, cuja dianteira galopante de estudo - mercê da feliz coincidência entre o relativo pioneirismo da área e a disponibilidade de matéria prima que abunda nos mercados ou se reinventa online - permite abordar os mais diversos autores, estilos e géneros em tantas e variadas direcções como as que é possível desejar. Ainda em graça da sua novidade este corpo de estudo fundamenta-se numa relativa pequena amostra de bibliografia comum de referência obrigatória para quem pretende iniciar a sua investigação. Atribuindo à diminuta cristalização de correntes autoritárias reconhecidas enquanto tal neste domínio uma informalidade de possibilidades que permite ao apreciador tecer comparações e conclusões com as demais áreas de estudo e objectos, é com consternação que denotamos que no actual geist colectivo da banda desenhada tida como séria, as referências no domínio do público em geral parecem restringir-se às cada vez mais óbvias citações dos Maus por Art Spiegelman, Persepolis de Marjane Satrapi, e uma qualquer edição por Joe Sacco. Esta santa trindade repete-se ad nauseam pelos primeiros parágrafos de crónicas domingueiras que pela enésima vez nos recordam que a BD não é só para pirralhos – e, cumprindo com a recordação da advertência, tipicamente tais análises avançam para a apresentação do autor, livro ou exposição do momento, expirando a utilidade da alusão.

A crescente conveniência da comunidade académica pela BD parece ser a singular menção de registo do actual estado da arte. Como, de resto, tão bem sumariza ainda que inadvertidamente a mais recente exposição sobre o tema da edição #113 segunda série da revista “LER, Livros e Leitores”. No seu texto, a autora teça o complexo retrato do panorama nacional, contrapondo ora o “estranho paradoxo” ora a “longa dissertação sobre os contrastes, produção artística e as condições em que trabalham os autores e editores nacionais” (Sara Figueiredo Costa, 2012) como oportunidades de interpretação. O paradoxo redunda da fricção entre insignificância a que a banda desenhada nacional se condena e o vibrante dinamismo da sua produção actual, a longa dissertação pela diluição do atrito anterior numa análise mais abrangente. Seis páginas de explanação concluem na dualidade já aqui anteriormente registada sobre as percepções que os agentes da área doutrinam a quem os quiser atender:

Editor, autor ou crítico esforçam-se nas suas competências por erguer um mercado que todavia resiste aos seus melhores empreendimentos e consegue evitar materializar-se em números concretos, recorrentes, ou sequer dignos de menção. A angustia destes agentes é tanto mais sentida quanto é a sua convicção de que, pelas regras ou talvez mesmo contra estas, esse mercado se deveria prostrar à sua graça. (…) É necessário não esquecer a esquizofrenia de discurso dos agentes de BD nacional. Encarnando os que mais vocalizam a sua insatisfação perante fado que têm a braços, serão também os primeiros a refutar em uníssono a mesma constatação quando esta é apontada por elementos exteriores ao colectivo sancionado. As reacções melindram-se no enumerar de colectâneas, exposições, prémios ou publicações estrangeiras como legitimadoras do meio, na sua complexa história de artefactos e factos coloridos, nas crónicas, reportagens ou notícias que se manifestam nos media, algumas das quais inclusive até redigidas por jornalistas sem ligações aos autores. Logicamente, no seguimento de todo o seu raciocínio, não é a BD portuguesa que está mal, mas os seus leitores.
(o real Nós, 2011)
Sem evitar a evidência da não disfarçada amargura com que a banda nacional se contrai neste início de século, a autora contrapõe o excelente momentum criativo que a permeia e a enérgica iniciativa dos seus intervenientes, possivelmente permitindo-se a germinar no pensamento dos seus leitores uma optimista ideia de revolução eminente sobre o fado que nos aflige, rasgando com a infeliz invisibilidade da sua divulgação e elevando a BD ao seu natural desígnio de excelência entre as restantes artes – ou, pelo menos, a mais prateleiras de supermercados.

Helás---

Infelizmente, tal relato não nos deve demover.

É deveras um conto judicioso dos factos relevantes à compreensão da BD nacional, estendendo-se desde as suas origens históricas, explosão editorial dos anos 90, ao seu subsequente declínio, causas e consequências, nichos paralelos de sobrevivência e subsequentes derivações, actuais autores de relevo e instantes de maior visibilidade, e generalidade da incompreensão desta linguagem. Infelizmente, este relato não é uma novidade. Infelizmente, quase referência por referência, este relato já foi feito, e pela mesma autora, no catálogo da Tinta dos Nervos, circa 2011. Infelizmente, tento este sido impresso em Janeiro de 2011, a escrita do dito recai provavelmente em 2010, aumentando o hiato para dois anos entre o par de composições do “actual” ambiente bedéfilo nacional, em que “actual” se deve livremente confundir com “permanente”.

Não criticamos a autora ou a essência dos seus textos. Muito pelo contrário, estamos-lhe gratos pelas constatações que tão sucintamente nos apresenta, apenas não partilhamos do espírito das suas conclusões e contrapomos com as nossas.

Em consequência, impõe-se a interrogação: com todas as referencias esgotadas, que promessa permanece por cumprir para a banda desenhada nacional que se possa aperaltar para 2013, que não retumbe a deja vu e que já não tenha já sido fustigada até ao seu âmago para a exaltação caridosa da nossa BD?

Retornamos pois, à supramencionada conclusão que inadvertidamente a comparação dos dois textos nos oferece e nos recorda que a principal inovação da BD neste país nos últimos anos se resume à cada vez mais interventiva competência académica com que se debruçam hoje alguns curiosos sobre este lugar de penitência. Acrescemos ainda que este interesse da comunidade académica pela BD não é sequer distinção das nossas histórias em quadradinhos per si, apenas e tão só o resultado casual de um acesso generalizado a um ensino superior que multiplicou a abastança de investigadores disponíveis a aderir a nichos cada vez mais obscuros e marginais. Provamo-lo com a mais clara evidência possível: a visibilidade destes estudos parece concorrer com a visibilidade dos seus próprios objectos de estudo, e o seu foco centra-se com cada vez maior segurança no passado desta arte, em detrimento do seu presente. Tendo a divulgação científica da banda desenhada registado um avanço notável, esta permaneceu enclausurada no seu desdém habitual. Comparemos a diferença entre o soalho flutuante de uns e os armários de outros: um conhecido blogger de causas académicas bedéfilas, previsivelmente por escassez de maior disponibilidade é forçado a recorrer a técnicas mais expeditas de ilustração do tema; no sentido oposto, outro conhecido blogger de divulgação BD, mais dado ao sumário das agendas de edições, preenche posts com fotografias das suas prateleiras e colecção particular de livros. Isto, já depois de brincar os seus leitores com as dos seus bonecos, previsivelmente também por penúria de assunto.



Nota:
Na impossibilidade de exaustão de um qualquer tema sem recurso a um compêndio que faça justiça a todas as contribuições possíveis de registo, fomos obrigados a limitar substancialmente as referências utilizadas. Outras há, mas cingimo-nos no âmbito ao que é da esfera da cultura popular. Se não é popular, não é banda desenhada.


Post-scriptum:

Moebius morreu, duplamente privando-nos da oportunidade de erguer a BD a novos estados. Por um lado, pela dimensão da perda, da qual o valor das distintas homenagens é elucidativo. Por outro lado, porque se desbarata novamente a ocasião de expirar o autor certo –ou, mais adequadamente, o autor errado-, continuando a reter como nota de rodapé a mais imponente obra de BD alguma vez gerada, objecto tão monumentalmente extenso e complexo que deveria ocupar em toda a sua centralidade e inevitabilidade o topo do panteão da banda desenhada, mas apesar de toda a mestria com que a elevou nos seus próprios termos, ignoramos num mutismo gritante uma presença incomoda da sua história que arrisca a transformar-se num desmedido paquiderme no meio da sala e de quem ninguém pia: Cerebus, de Dave Sim (bónus: em jeito de homenagem, apesar de prematura).

Apesar da enormidade da obra e da muitíssima debatida polémica sobre o seu autor, este feito da banda desenhada parece esfriar no esquecimento das nossas memórias colectivas, possivelmente por deferimento ao putativo período de nojo pela supra mencionada controvérsia do seu autor. A espera por uma efemeridade que nos proponha a revisão da sua importância prolongará essa abstracção da nossa capacidade de ponderação do artefacto, e com surpresa apercebemo-nos que já hoje estamos diante toda uma nova geração de leitores que desconhecem de todo este famoso Aardvark. E, no entanto, estamos perante a mais importante banda desenhada alguma vez produzida. Em Cerebus, a banda desenhada atingiu o seu zenith, e fê-lo em proporções tão intimidatoriamente monumentais que não encontramos em nenhuma outra obra um igual depurar deste meio. Os livros de Sacco, Satrapi e Spiegelman, aos quais atribuímos uma aura de seriedade irrepreensível, são comparativamente um loony tunes para o citizen cane que é Cerebus. Nesta comparação não se pesa o sofrimento histórico de polacos, persas ou palestinianos contra a misoginia de Dave Sim e a sua excêntrica theory of everything, mas a mestria com que ergueu a fasquia da banda desenhada e conseguiu produzir uma realidade que se adensa num extensíssimo intrincado tratado filosófico sobre a própria Humanidade. Poucos concordarão com as conclusões do seu autor e apenas uma mão cheia de mais alguns conseguiu sofrer a leitura integral de Cerebus até ao fim. Como de costumeiro nesta arte, a sua mais excelente construção permanece ignorada pelo público em geral e aficionados em particular, por razões diferentes.

Scene Report II