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realismo capitalista 9

CAPÍTULO IX:
"Superama Marxista"

To tell people how to lose weight, or how to decorate their house, is acceptable; but to call for any kind of cultural improvement is to be oppressive and elitist. The allege elitism and oppression cannot consist in the notion that a third party might know someone’s best interest better than they know it themselves. No: the problem is that only certain types of interest are deemed relevant, since they reflect values that are held to be consensual.

Conclusão, concluindo com um retrato pouco favorável ao capitalismo resumindo de linhas de orientação abertas nos capítulos anteriores como possibilidades de brechas ao realismo capitalista: burocracia, politização da saúde mental, ambiente... A crise de 2008 como oportunidade que a) reforça o modelo actual – "não há alternativa" –, b) mas coloca o neoliberalismo em suspensão – possibilidade do seu descrédito ante um público queimado pela crise do cof-cof, crédito. Pergunta Mark Fisher se estaremos à altura do desafio, lançando um repto à esquerda para que seja criativa na procura de –yep- alternativas – inadvertidamente, admitindo que afinal não as há mesmo? Cof-cof... Sim: parêntesis, reticências e contradições em todas as frentes, a esquerda não está imune – mas para um manifesto político com declarações de meios para fins mais concretos materializados além da filosofia podem ler "Reclaim Modernity – beyond markets, beyond machines" em parceria com o Jeremy Gilbert e Zoe Williams.

Resumo de intenções: a esquerda deveria deixar de ambicionar apenas um big state e, genuinamente –além da tomada deste- submete-lo à vontade geral dos seus cidadãos. Passo que, necessariamente, implica reavivar esse conceito e modernizá-lo, contemplando além da redução do espaço público à agregação de indivíduos e dos seus interesses particulares.

Da oportunidade, a crise de 2008 permitiu compreender o neoliberalismo como um projecto inerte sem a confiança de um impulso que avança em direção a um futuro melhor, modelo por defeito que sobrevive no subconsciente económico da esfera política porque nenhuma alternativa credível e coerente se tenta impor em mais esta brecha do realismo capitalista.

The credit crisis is an opportunity – but it needs to be treated as a tremendous speculative challenge, a spur for a renewal that is not a return. An effective anti-capitalism must be a rival to Capital, not a reaction to it.

Das falhas de projectos anti-capitalistas no passado: novas formas não podem estar presas a velhas linguagens ou tradições, nem essas tradições devem ser causa de desespero – ou romantizadas. Se o neoliberalismo triunfou no passado pela incorporação dos desejos da classe trabalhadora, a nova esquerda deverá começar por construir sobre os desejos que o neoliberalismo foi incapaz de satisfazer.

Spoiler alert: segue-se o cite final do capítulo que fecha o livro.

The very oppressive perverseness of the capitalist realism means that even glimmers of alternative political and economic possibilities can have a disproportionally great effect. The tiniest event can tear a hole in the grey curtain of reaction which has marked the horizons of possibility under capitalist realism. From a situation in which nothing can happen, suddenly anything is possible again.

As esperanças que Fisher depositava na crise económica do final da primeira década deste século poderão ter parecido logradas com o tempo, mas em finais desta segunda década o presente turbilhão político-social poderá demonstrar que elas foram apenas prematuras. O que nos devolve às teses: enter tech, a libido da nossa crise, à qual associamos nós a possibilidade de "pequenos eventos" com o potencial de tudo ser novamente possível, agora que tudo pode mudar.

E nessa frente, voltamos atrás ao início deste capítulo para destaques que nos são mais próximos. Paternalismos, sem o Pai, e como tudo se liga de volta à web, cultura popular style. Pergunta MF: se não é possível nem desejável regressar ao superego paterno – a figura do Pai severo chefe de família que zela por esta – como podemos avançar além de uma cultura de conformidade moribunda que resulta da recusa em educar ou desafiar o seu público?

Explicando, para chegarmos à resposta, uma com referências repetidas a Spinoza. A crise do superego paternalista no capitalismo tardio é uma variante da crítica ao Estado Ama, que implicitamente mas implacavelmente incide sobre a permissividade hedonística da pós-modernidade. O Estado Ama assume que as crianças encontram-se num estado de abjecção incapazes de reconhecer os seus próprios interesses, as causas das suas acções ou das suas consequência, sendo que os problemas que confronta não resultam do carácter das crianças – que apenas se espera que sejam idiotas hedonísticos – mas dos seus pais: toda a família se vê enredada em contrariedades de miséria porque estes também perseguem o mesmo principio da procura do prazer e o caminho de menor esforço para o alcançar. A persecução de uma vida fácil por parte dos pais leva-os a ceder a todas as exigências dos filhos, tornando-os cada vez mais tirânicos, e a supressão da cultura paternal de responsabilidade por uma mais maternal com o imperativo no deleite – pun intented!- permite compreender como o parenting é subitamente passível de recriminação se de alguma forma impede a criança do seu direito absoluto à diversão.

A Super Ama deve resolver problemas de socialização que a família já não é capaz de solucionar. Uma Super Ama Marxista, acrescenta Fisher, "would of course turn away from the troubleshooting of individual families to look at the structural causes which produce the same repeated effects".

Podendo então regressar à resposta à pergunta, Spinoza, e de como podemos pensar num paternalismo sem um pai – com uma passagem por Burroughs, Philip K. Dick e David Cronenberg. O vício como estado normal do ser humano e não um comportamento de desvio, os indivíduos como escravos de reações às quais se habituam, e cuja liberdade apenas pode ser alcançada quando compreendermos as causas reais das nossas acções e colocando de lado os falsos desejos que nos possuem. Hélas essa compreensão é-nos vedada pela perseguição ao ócio e entretenimento – natural, afinal?- mas igualmente pela nossa aceitação das formas que esse deve ter, e essas deixaram de se ancorar na sua dimensão moral para habitar no reino dos sentimentos. Long cite de Adam Curtis a exemplo da bullshiter por excelência porque no original é sempre melhor, mas não se livra dos nossos mashups,:

TV now tells you what to feel, it doesn’t tell you what to think anymore. And through the editing, it gently suggests to you what is the agreed form of feeling. If you analyze television now it’s a system of guidance – it tells you who is having Bad Feelings and who is having the Good Feelings. And the person who is having the Bad Feelings is redeemed though a "hugs and kisses" moment at the end. It really is a system not of moral guidance, but of emotional guidance.

Sentimentos substituem a moralidade (*) e os indivíduos sentem todos o mesmo,  fechados sobre si mesmos e sem conseguirem escapar à sua condição solitária e  sua imaginação – com toda uma máquina económica que depende do promover essa estrutura que o sustenta.

* Podemos, devemos! meter aqui uma entrada ao feminismo e justiça, mas antes de pegarem nessas tochas e ancinhos, ou colheres de pau –funny! – deem-nos o benefício da dúvida sff.

Our job is to take people beyond the limits of their own self.

E assim chegados à web, cruzado a cultura e media. Atacada como facilitadora ao isolamento de comunidades e promotora de redes de indivíduos que partilham das mesmas concepções do mundo, validando-se mutuamente em vez de se desafiarem a mudar concepções e preconceitos, acusadas de se retirarem da esfera pública para espaços privados. Melhor - como em, pior ainda- o impacto das tecnologias web tem sido prejudicial  para os media tradicionais porque estes reagem com um maior abandono da sua missão de educar e liderar, tal como se vêm assoladas por um populismo que reduz os seus conteúdos a uma vacuidade medíocre. MF contrapõe: essa visão possui alguma razão, mas não considera a totalidade das aplicações que se desenrolam online. Ele próprio um blogger, exemplifica como estes podem gerar novos espaços discursivos - e mesmo que o próprio considere que esses possam não ter uma correlação ao espaço social fora do ciberespaço, perdoamos-lhe por ter escrito o livro pré-redes sociais a mudar o funcionamento da política: vide Trumpas e Twitter, Facebook e fake news. Regressando a algumas zonas do ciberespaço que conseguem sustentar uma resistência à "compressão crítica" que deprime os restantes meios, MF ataca as redes sociais – nomeadamente Facebook e MySpace, e por este último estamos a datar o texto- redes narcisistas geradoras de conteúdos repetitivos, parasíticos e conformistas. Uma ironia, diz-nos, que os media tradicionais, coibindo-se de serem paternalistas deram azo à produção de uma cultura cada vez mais infantilizada, em vez de uma "bottom-up culture of breathtaking diversity" (*).

* OS POSITIVOS: cultura infantil, ou bottom-ups à diversidade de tirar o fôlego? Antes de responderes, acresce o parágrafo que se segue à equação, sff.

E, dupla ironia, diz-nos também o autor que por contraste, uma cultura paternalista (*) trataria as audiências como adultas, capazes de lidar com ideias complexas e intelectualmente estimulantes.

* OS POSITIVOS: quando nos acusam de sermos paternalistas, é isso que te referes?

Isoladas no seu "império do eu" e servidas por um capitalismo que promove essa perseguição hedónica, outra brecha se abre: as pessoas não sabem o que querem, e algumas das mais poderosas formas de desejo são justamente as que aspiram o diferente, o inesperado, o estranho – e que apenas podem ser conseguidos por aqueles que estejam dispostos a correr riscos na produção desse tipo de material (*) .

* OS POSITIVOS: não, não nos ocorre dizer nada aqui.

Essas inovações sobre o mais do mesmo, infantil, boçal, são impensáveis onde o público é substituído pelo consumidor e o cancelamento do "long term" invariavelmente conduz à estagnação e ao conservadorismo, não à inovação. Que, recorda-nos, não é um paradoxo quando consideramos que o medo e o cinismo são sentimentos predominantes no capitalismo tardio, sentimentos que não inspiram saltos de imaginação e confiança mas conformidade ao culto da menor variação. Defendendo que um bom grau de estabilidade é necessário para uma produção cultural vibrante, compara-se novamente ao Marxist Supernanny: esta deve estabelecer os limites, quem age no nosso interesse quando somos incapazes de o fazer nós próprios, mas também quem está disposto a suportar os riscos de nos incutir algo a que não estamos habituados: outra ironia da sociedade capitalista, tão próxima do risco, mas tão pouco orientada a arriscar fora do consenso social constituído.

E, grosso modo, fechamos aqui o tour do "Capitalist Realism" de Mark Fisher, citado, transcrevido, traduzido, misturado, combinado para efeitos de clareza de texto - há parágrafos inteiros que são do Mark mesmo se não assinalados para não quebrar o discurso, há ideias que resultam das nossas escolhas de interpretação e não lhe devem ser imputadas, mesmo se usamos das suas palavras :)

pontas soltas