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o dissemos antes: o long read para pensares, o digital para agires. A confusão de ambos é perniciosa se a sua comparação não implica uma distinção, e combinar os dois demasiado tentador para resistirmos. Gradualmente assumimos nOS POSITIVOS esse formato no regresso ao fanzine aberto à comunidade: o long read. Abrimos a homepage ao público para um acesso fácil aos conteúdos e acompanhar da nossa lógica/argumentação, e acrescentámos à tagline a sua mais recente variação para reflectir a nova natureza deste projecto: "fanzine do contra com cultura: uma outra cena de banda desenhada desalinhada desdenhada de propaganda punk veggie anti-nazi com HUMOR E DEPRESSÃO quanto baste" .

No processo, de forma não totalmente intencional mas consequente -e até recaída (*) que nos mova em sentido inverso- os nossos rabiscos descem a segundo plano ou são exclusivamente editoriais, precisamente quando vos tentaremos convencer do papel que a BD pode e deve ter no contexto das comunidades em digital. E essa será a nossa primeira grande ironia do actual formato dOS POSITIVOS porque o satírico continua a ser parte do nosso DNA, mesmo quando em campanha pedagógica.

Claro está! Não vamos oferecer BD mas talvez literatura para ser apenas do contra!
in "ccc@mini.zine.fest.pt" 27 abr 2017

* As diatribes pessoais continuam por aí a espreitar mas grosso modo mal sentidas e despercebidas entre a avalanche de lorem ipsum com que registamos o estado da arte dos tópicos que nos ocupam neste espaço.

Do satírico e outras intenções que se fazem: estes acontecem muita vezes em meta: como o fazemos, não o que fazemos. Por vezes, queremos mesmo dizer o contrário do que fica dito, algo que só aquele "slow read" nos P+ permite descodificar. E por esta altura introduzimos a nossa segunda grande ironia do momento tendo entretanto chegado ao tópico. Continuando dos livros, formatos, leituras longas, fatiga digital, fanzines, literatura alternativa, independente, ser do contra com cultura - e os cómicos ficam de fora por agora mas acreditem que tudo voltará a eles no final:

Elegemos o long read como formato preferencial porque todos se treinam no abreviar os seus escritos. Aquilo de realmente ser do contra.

Para ilustração falamos de literatura desalojada mas ao invés de decretar estado de emergência, apelamos -yet again- às armas. Ou, pelo menos, que desenhes também numa dimensão digital, multimédia, tecnológica.

Recordemos a crónica da semana passada de A-to-the-G a pretexto da retirada dos livros de Agustina Bessa-Luís de circulação, no qual se foca nas consequências indesejadas da prevalência do ever-present presente sobre as demais lógicas. Do imediatismo:

Houve uma redução do espaço da literatura na cultura global
A lógica da publicidade
Numa análise sumária, este exemplo revela os resultados do processo de concentração editorial e da consequente transformação das livrarias em entrepostos da indústria de conteúdos produzidos pela ordem editorial em vigor. Num regime do "acabado de sair", que suspende a memória, a distância e a crítica, e em que a actualidade é produzida como um poderoso artefacto.
in "A literatura desalojada" 21 abr 2017

- vs uma certa memória -

A condição de "fundos" — essa zona cada vez mais exígua e longínqua, graças a um presentismo triunfante em todos os domínios, incluindo no modo de edição, comercialização e divulgação dos livros.
in "A literatura desalojada" 21 abr 2017

E daqui ao slow read/long read estamos conversados. Trabalhamos para o arquivo de uma certa memória o regime do "acabado de sair" porque é da nossa matéria, mas em momento algum confundirão as nossas intenções de abono à indústria, e incentivamos os indies que nos leem a resistir em todos os domínios à sua comercialização, nem que para isso adoptem os modos de edição que lhes eram contrários: é uma guerra de guerrilha.

Dúvidas houvessem:

Ter em conta também o facto de o ensino da literatura, que foi o instrumento privilegiado para reconhecer a continuidade com o passado e a cultura nacionais, já não ocupar hoje o mesmo lugar.
in "A literatura desalojada" 21 abr 2017

Neste ponto da sua crónica, António Guerreiro introduz um parêntesis que nos levaria a todo um outro desenvolvimento:

Não entremos no discurso sobre os malefícios de uma coisa a que alguns chamam "eduquês" e "falta de exigência" porque é tudo muito mais complicado.
in "A literatura desalojada" 21 abr 2017

Sim, muito complicado, para outro dia.

E destacamos:

A formação global é hoje dominada pelos modelos propostos e impostos por outros regimes da comunicação e de socialização da cultura. Ora, grande parte da literatura que se vai escrevendo e publicando tenta abrir vias no mercado da comunicação, entrando no próprio jogo que a aniquila. E assim se deixa capturar pelo vórtice do ruído generalizado. Verifica-se que são os próprios escritores, muitos deles, a fazer tudo o que é necessário para tornar a literatura subalterna e não essencial.

Esses regimes de comunicação e socialização que co-optam os próprios escritores a voluntariamente tornarem a sua literatura não essencial não são estranhos às premissas das nossas teses, mas reconhecemos-as como um desafio e sem fatalidade, tentando convencer os nossos punx a tirar partido destas quando não as podem vencer.

Ainda de AG, o segway para próximo artigo que escolhemos partilhar a propósito de adequar a comunicação aos meios.

Paradoxalmente, à restrição, retracção e marginalização do seu espaço, corresponde um aumento angustiante da quantidade de livros publicados.
in "A literatura desalojada" 21 abr 2017

E dessa quantidade de livros falámos ontem. Mas passemos à revista dos escritos de Carlos Rosa, "designer e vice director no IADE da Universidade Europeia", publicado dias antes com o título bombástico "Os Livros Estão Mortos", e daqui à fatiga digital fazem-se muitas outras pontes.

O conceito de livro está morto. A escrita não morreu. O design não morreu. A criatividade não morreu. Tem, sim, que ser reinventada.
A ideia de livro está provavelmente morta. Em declínio. Em queda. Ninguém lê. E ninguém lê porquê? Porque não temos tempo. E porquê? Porque são publicados em média 52 livros por semana. 52 livros por semana perfaz um total de 2704 livros por ano. Se cada livro tiver em média 150 páginas, dá um total de 405600 páginas de caracteres para ler.
in "Os livros estão mortos!" 15 abr 2017

Onde AG se queixa da retirada de livros antigos do mercado, CR acrescenta que demasiados novos livros inundam o mesmo, e se ambos podem concordar que já ninguém os anda a ler, o último -talvez por formação- aponta pistas à adequação que se poderá tentar. Uma que, também, se encontra nas bases das nossas teses: aquilo do digital. Diz-nos:

O presente da escrita, do design e da tecnologia associada à criatividade de parir um livro transformou-se. Quem escreve terá que escrever de forma diferente e para formatos diferentes. Quem desenha já não vai desenhar capas. Irá desenhar numa dimensão digital, multimédia, tecnológica. E quem lê, já quase que só lê em suportes digitais.
in "Os livros estão mortos!" 15 abr 2017

E o respectivo destaque que se impõe:

A pergunta é se podemos continuar a publicar como publicamos. A pergunta não é nem poderá nunca ser se devemos ou não escrever, se devemos os não parar de criar conteúdo, parar de criar imagens, parar de criar textos. Há que olhar para o mundo e reinventarmo-nos, porque o mundo já se reinventou e está ansiosamente a aguardar por nós.

Punx in digital: o mundo aguarda-vos.

Mas mantenham sempre com aquela distância que nos separa dos demais. Ainda do core das nossas teses, não é com inocência que notamos que ambas as peças citadas foram retiradas do mesmo jornal e que por sua vez têm como base às suas próprias crónicas outras peças igualmente veiculadas nos media:

"soubemos pela revista Sábado"
in AG
"roubei estes números à jornalista e editora da revista Egoísta, que os revelou numa entrevista à TSF"
in CR

...e dessa relação, na relação aos seus próprios temas, muitos outros sentidos se fazem também aqui em "meta".


concealment, misdirection, deception

No tópico de ironias e se sabes que fazemos tudo em três: já revelámos duas. Nunca esqueças a terceira.

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