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sobressaltos

Terror por autores portugueses de BD

& we don't even know who we're pissing off this time around!

A propósito de antologias é lugar comum apaziguar os seus desequilíbrios internos pelas diferenças inevitáveis que o ajuntamento de peças avulsas proporciona. Essa falácia coloca sobre os autores uma responsabilidade que de facto não lhes cabe: os inevitáveis desequilíbrios de tais obras devem ser atribuídos ao real prevaricador dessa amálgama: o editor.

Exemplificaremos com o recente "Sobressaltos - Terror por autores portugueses de BD" na perspectiva da sua edição - e pouco ou nada nos importa nesta análise os seus autores ou o enquadramento das suas BDs noutro contexto que não o do livro em questão.

Poderá conter spoilers – nesta fase da escrita ainda não sabemos :) – leiam por vossa conta e risco!

Por si, uma antologia com os tais inevitáveis desequilíbrios:

nasceu de uma combinação de toda uma série de esforços que encontrou aqui uma expressão comum, mas não deixa de demonstrar essa mesma natureza desigual
(e não é que queiramos estar sempre a citar o mesmo, mas mais ninguém escreve duas linhas que nos valham a pena...)

...Mas cujos desequilíbrios poderiam ter sido atenuados com um cuidado maior na sua edição. Comecemos pelo inicio: o objecto em si. Se o formato e gramagem do papel nos convenceu à primeira, a sua capa é de longe o primeiro e maior susto que o leitor terá que suportar.

Não sabemos qual a opção mais infeliz: que a fonte do título passe por ser o resultado de um processo de escolha intencional, ou a total desconsideração a que a fonte do subtítulo parece ter sido relegada, ou ainda escolha do desenho que lhe dá (pun alert!) rosto.

Layout e cores: preto e vermelho terá sido um no-brainer (get it? "no-brainer"? I'm funny!), e o corte sem margens uma boa escolha. As más opções: o rebordo branco da lombada transfigura-lhe totalmente a personalidade, o título e subtítulo quase a não merecerem o seu lugar de tão envergonhados que estão, e esta assemelha-se a um poster sobre detalhe de prancha, não uma capa.

Na mesma página e pelos mesmos autores, uma montagem sobre a imagem do corte do olho seria mais dramática e humana em simultâneo, conseguindo-se nessa combinação inspirar mais terror do que a já quase totalmente disforme e irreconhecível escolha que foi feita. Sendo esta já tão abstracta, pouco ou nenhum reacção nos consegue apesar do sujeito estar visivelmente em dor.

Além de que a metáfora de cortar o olho é-nos deliciosamente mais útil quando se trata de um livro – como editores provavelmente encaixaríamos sobre este tantas outras mensagens quantas conseguíssemos. Mas não queremos julgar o livro pela capa: continuemos.

Ao abrirmos o livro apercebemo-nos que afinal os seus editores também não devem ter gostado lá muito desta já que imediatamente nos oferecem uma capa alternativa.

Exatamente os mesmos elementos, outro desenho. Nesta já corrigiram o posicionamento do título e subtítulo - mas não as suas margens horizontais - e escolheram uma imagem mais reconhecível num enquadramento em que obviamente já consideram o leitor - ao invés da imagem original onde não só não sinto qualquer empatia ao amiguinho como acho que ele nem sabe que estou ali, o que ainda me torna mais fácil assistir indiferente à sua miséria, por mais expressiva que seja. Não querendo mais bater no ceguinho e fim de estória: a capa? Inspiraria mais terror se trouxerem o leitor para dentro da acção.

Segue-se a ficha técnica.

É difícil encontrar algo que embirrar numa ficha técnica, mas reparo que lá colocam aquele aviso do "é expressamente proibido reproduzir esta obra", ao que temos necessariamente aqui de replicar com "ah é?" seguido do "tão, curte isto..."

Avançando:

Índice com aquela fonte pavorosa - costumo insistir aos teens que sejam consistentes no uso das fontes, neste caso mais que abria a exceção de já a terem deixado cair à segunda página! - texto centrado em eixo central devidamente aninhado sobre uma cabeça degolada. Abaixo do título da página esgotaram-se novamente as opções de lettering e o tom geral da página é de uma ameaça latente: estes são os autores e eles não estão aqui para brincadeiras!

É uma mensagem forte, a mais forte até agora (capa: flop; primeira página: estabelece algum ambiente, algo maléfico e antigo; ficha técnica: ninguém a lê; página três: “this is terror daesh style up-in-ur-face bitchis!”). Esta discrepância de ambientes não pode deixar de criar alguma cacofonia de leituras, por esta altura (again: tecnicamente terceira página do livro, segunda frente) já estamos a sentir falta óbvia de uma linha editorial digna desse nome.

Segue-se um prefácio por António Monteiro (e já sabemos quem estamos a irritar hoje...) onde este faz uma curtíssima resenha histórica do terror em BD –“curtíssima” ao ponto de perguntarmos que valor tem ou qual a validade da mesma no âmbito deste livro – e apresenta-nos o enunciado que terá sido dado aos autores, ainda mais curto que a resenha que o precede. Como prefácio, este texto é perfeitamente digno do trabalho editorial que este livro revela até ao momento. Como texto, notamos novamente a economia de uma formatação digna desse nome, porventura depois da canseira que foi escolher a font do título do livro.

E finalmente a BD: chegamos ao cerne da questão.

Aqui podíamos fazer alguns jogos de palavras com expressões inglesas como “to sink my teeth in” em que se utiliza o termo “meat” para equiparar ao “conteúdo sumarento” desse cerne e destas era um salto chegar aos “bones” numa referência óbvia à história de Joana Afonso. Mas não achamos que a sua BD seja “all bones no meat”, apenas que foi mal utilizada no livro.

Joana Afonso (pag. 6 e 7)

O seu desenho continua a ser do mais capaz este país tem para apresentar. Mas mantemos a nossa impressão que não o usa de para dizer nada de especial – mesmo dando o desconto de serem apenas duas páginas sem texto :) Não pretendemos defender aqui que autor algum se feche em guetos temáticos, mas ainda que Joana Afonso possua todas as competências de fazer inveja a qualquer desenhador falta-lhe ainda encontrar o “seu” tema para se elevar acima do “artist for hire” e tornar-se numa “autora”.

Sobre a BD que apresenta, duas notas apenas.

Primeiro: o impacto da mesma seria terrificamente mais tremendo se o seu esqueleto denotasse uma pose ou uma morte muito menos pacífica do que a que transparece.

(aquilo é uma corrente ali ao lado da cama?)

E, sobretudo, o principal problema com a BD de Joana Afonso (pag. 6 e 7) é não ser a BD de Joana Afonso (pag. 5 e 6), e esse é um erro do editor.

Este é, de resto, um erro recorrente em todo o livro, e diríamos mesmo O erro de todo o livro: as histórias começam numa página e terminam na página imediatamente à frente. Para comparação ajuda bastante, mas num livro que vive do suspense e da expectativa, isso é um big no-no! que o editor devia ter precavido. Precavido é pouco, devia ter girado toda a sua paginação em torno de um conceito muito simples: criar expectativa, obrigar a virar página para resolver. Repete ciclo 20 vezes, e o leitor tem um livro potencialmente emocionante de ler em mãos.

Em vez disso temos uma história que abre à esquerda e fecha à direita. Confesso: boa parte delas li na diagonal porque a sua conclusão estava sempre no canto do olho a pedir desfecho: way to fuck a book.

A BD de Joana devia não só ter respeitado essa paginação, como, dada a história em si, deveria ter sido introduzida antes do prefácio: de longe a mais “curta” de todas, pelo traço e pelo história criaria todo o ambiente “certo” para o livro desse ponto em diante. Arriscamos mesmo que essa inversão poderia quase salvar o prefácio. A diferença que teria feito - não estariam agora a ler esta crónica por exemplo. E vantagem nº dois de antecipar a Joana ao prefácio: separava-a da história de Tiago Pimentel.

Tiago Pimentel et al.
Em momento algum esta BD deveria seguir-se à BD que a antecedeu. Fora o preto e branco obrigatório e o exíguo enunciado que os une são universos, contextos, densidades e intenções demasiado dispares. Tal como as restantes BDs têm o seu lugar, e este não é esse.

Mas uma vez iniciado esse rol, a decisão seria como alinhar esta com a de Ricardo & André, Osvaldo e André, João Sequeira e José Smith Vargas, BDs que partilham de uma mesma densidade de texturas e solenidade – ainda que essa densidade em alguns casos não vá mesmo além da textura, e sim, falamos obviamente de “Casca”, onde não tendo reparado na autoria quando iniciamos a sua leitura imediatamente chocamos de frente com uma verbosidade que nos exaspera, quer pela sua artificialidade quer pela inutilidade do exercício, cujo paleio apenas ergue as histórias para uma queda maior.

Num outro grupo, e que nada deve a hierarquias de importância ou falta dela mas aos estilos de desenho que os liga e o género de leitura que proporciona, seria necessário alinhar de forma mais meritória Luís Cavaco, Rui Gamito, Rui Lacas, Nuno e Bruno, Pedro Gamito e Santo, numa sequência que não seria de modo algum esta e que permitisse uma continuidade que atravessa do mais gore ao mais leve – ou, vice-versa, dependendo como este grupo seria integrado no anterior.

Finalmente, e sem menosprezo aos anteriores: os casos específicos.

Álvaro

A culpa não é dele. É do editor. O exacto momento que Álvaro lhe apresenta o projecto e termina com “e no fim tudo não passou de um sonho” é o momento exacto para o editor-in-chief lhe responder “obrigado mas não obrigado”. De longe a pior BD no livro, mas, como o estamos a tentar explicar desde o inicio: a culpa não é da BD, é de quem achou que ela fazia sentido neste.

Mosi

Compreende-se a intenção de apresentar a sua BD depois de Álvaro: seja o que for que se segue, só pode ser melhor - já vimos essa estratégia antes em outras antologias. Mas não foi o suficiente para nivelar a sua leitura à mesma condição das restantes. O estilo merece-lhe a inclusão sem qualquer favor no grupo dos cartoonescos, mas a história ainda pede alguma benevolência por parte do leitor para funcionar.

Carlota Borba

Há ali um gato no meio que parece um rato, mas o lobo está óptimo. Percebi o jogo de linhas: não funciona. Culpamos editor: este tem a obrigação de orientar os “seus” artistas para evitar situações destas - com boa vontade e no sentido de alcançar uma peça melhor cremos que teria sido uma conversa proveitosa e agradável para todos.

Ao contrário da que se segue.

Fernando Relvas

Esta é uma conversa difícil que alguém vai ter que ter. A BD não funciona: a última vinheta é simplesmente um salto de fé que não faz sentido algum, recorre com igual –mau!- resultado ao título repartido de Rui Gamito, e não compreendemos se os efeitos nos rostos das personagens foram simplesmente infelizes ou se são a maldição da inaptidão digital pós x-de-idade (pensem “O Elefante” de João Amaral).

PepdelRey

E o editor deve também carregar os seus artistas proporcionando-lhes um veiculo que lhes seja favorável. O “Corno” é o melhor exemplo. Para esta BD teríamos propositadamente criado um insert A5 (alguém na paginação que resolvesse tecnicamente essa merda...) que fizesse mais justiça ao seu traço. No formato do livro não funciona, num formato bastante mais pequeno funcionaria bastante bem.

José Lopes

A sequência dos olhos e o rosto na árvore da última vinheta nunca deviam ter acontecido. Ver Carlota: culpa do editor.

Filipe Alves

Nada de errado com os seus desenhos per si mas a composição de página sofre de excesso de confiança no digital para o layout final da página, esta transpira demasiado ao encaixe possível à posteriori de elementos isolados. Como em Carlota e José Lopes não é a competência de desenho dos autores que se questiona mas um acompanhamento por parte de quem de direito para todos chegarem a um resultado mais sólido.

Andreia Rechena

Como Pepe, é uma autora que funciona melhor em formatos pequenos.

E como faríamos em Joana Afonso, não nos limitaríamos a reordenar a sua peça no todo mas a mudar-lhe a natureza em prol desse todo. Procuraríamos colocá-la noutro contexto, dividindo as páginas do prefácio na vez das ilustrações meramente gratuitas do actual.

Não pretendemos com esse gesto uma desconsideração à sua peça: pelo contrário, esse reposicionamento é um destaque à mesma, na qual um (novo) texto de prefácio e essa BD reforçam-se mutuamente para concluir o tom do livro que agora começa. Em último caso seguia para o insert e o estagiário na paginação tinha menos um problema para resolver neste e mais tempo para se dedicar à escolha de fonts.

Finalmente, as páginas finais de autor.

Font, fontes, margens ao texto, relação às fotos, e, por falar nestas, sou só eu ou seria muito mais interessante se estes “autores portugueses de BD” aqui apresentados fossem maioritariamente ou na sua totalidade autoras portuguesas de BD?

oh-no-he-didn’t!

Contra-capa: boa opção. Mas nesta fase do campeonato já vem tarde não? Ie, é literalmente o fim da coisa.

Uma antologia deve procurar criar equilíbrios entre as suas diversas peças, necessariamente heterogéneas entre si mas cuja leitura deve contribuir para uma experiência coesa que denote uma intencionalidade transversal a todas que se sustente / reforce de peça em peça em direcção a um qualquer sentido. Se estas já procuram responder ao mesmo enunciado, a principal falha que lhe podemos então apontar recai na forma, e já aqui admitimos que gostámos do formato.

Nota final: evitámos falar do conteúdo do livro.


Adriano sobre Cristo in "D+Q 25 Anos"
- Ah mas este livro e assim e assado;
- Ah, mas se calhar é pra isso que inventaram os prefácios, foda-se!

nada vale a pena