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state of the art III

Não temendo o desassossego do debate há quem tome a pequena –grande- decisão de não ser conivente à infantilidade do meio, incorrendo no ostracismo da objeção. A estes, restas-lhes a longa travessia no deserto e a satisfação de saberem que agem por plena integridade de consciência. Infelizmente, toda essa bravura redunda em eco algum no benefício do formato, persistindo ainda o desafio maior na capacidade de afrontar sem amedrontar. Da nossa parte, admitimos o fracasso – não temos a paciência necessária. Outros há que trilham uma estratégia diferente. Tomemos como exemplo –ainda que a amostra se confunda com a totalidade do universo representado na dita – o mais douto crítico nacional. Assim aceite sem dolo aos demais pelos próprios nativos, que entre a desconfiança e o frete se afeiçoaram à sua novel abordagem dos cómicos por via da análise académica em detrimento da divulgação de fanboy, este crítico habituou-nos a um raciocínio abstracto sobre o objecto em questão através de textos elaborados mas referenciados, e de uma inabilidade carismática de produzir parágrafos pelo meio.

Sigamos pois, a fábula que apresentamos:

Era uma vez 2005 e um jovem crítico em início de carreira ensaia uma tentativa de explanação não tão extraordinariamente positiva sobre um roteiro de BD entretanto publicado por um conhecido divulgador de status quo firmado na comunidade. Todos os ingredientes estão reunidos para um linchar de carácter: 1) um arrivista à cena 2) crítica 3) uma personalidade do meio.

Mas pasmem-se em saber que nenhuma tragédia adveio do caso. Bem, despasmem-se considerando os factos: a) 2005, pah! os velhotes sabiam lá o que era o facebook b) o jovem teve um demorado cuidado na contextualização das opiniões expressas nesse artigo para evitar ferir suscetibilidades c) 2005 pah! (pt. 2): quem o lia mesmo :) ?

Anyway, continuando com o nosso drama –ou melhor, à procura de um! – saltemos agora para 2012, onde encontramos o nosso já não tão jovem crítico entretanto a ganhar a merecida relevância nessa mesma comunidade. E nessa condição de referência incontornável, bastou-lhe um mero comentário despachado em nota de rodapé em blog alheio para a adiada vileza explodir em debate acesso. Now we’re rollin’! Um autor melindrado por uma crítica anterior por um outro crítico em um outro site dá o mote à discussão, o nosso firmado crítico vê-se obrigado a aclarar a sua posição, em blogs de terceiros longos comentários demarcam-se das competências de crítico e assumem-se assim mais como que tipo de divulgadores tás a ver, descartando responsabilidades de justificação além liberdade de escolha pessoal – bonito mas tanga... Com a crise ao rubro, em qualquer um dos casos a discussão gradualmente retorna à habitual paz podre e no cruzamento deste novo episódio aprendemos que a) ainda são necessários alguns bons parágrafos de falinhas mansas para suavizar alguma observação menos positiva mesmo quando já se possui alguma onerosidade no meio, b) o próprio assume ser seletivo nas obras que analisa evitando as que lhes nega mérito e assim propositadamente ou indiretamente evitando a controvérsia circundante.

Para o terceiro acto aterramos a 2014. Esse mesmo crítico, entretanto transformado na mais plena autoridade na matéria, do qual sabemos que opta pelas peças que não lhe causam exasperação mas que sabemos ainda ser capaz de exprimir essa virtude – note-se que ao contrário de obras nacionais, nada lhe tolhe o discurso para reprovar literatura académica internacional, funny hem?-, e que sabemos também ser diplomático o suficiente para enterrar o negativo em desproporcionais parcelas com o positivo para não alimentar a besta, avança com nova crítica onde lá coloca umas reticências a dada obra. Rapidamente o editor apronta-se ao contraditório nos comentários, mas já não estamos em 2005 ou 2012 e notemos os maneirismos e a elegância nos tratos. É outra classe. O nosso crítico foi ignorado, atacado, e finalmente levemente maçado nas suas opiniões: será a sua estratégia a mais eficaz para levar a BD à idade adulta? Estaremos aqui próximos de encontrar a moral da nossa fábula?

Não, puto, apenas um reflexo da autoridade do nosso crítico, ele ocupa agora o lugar do então conhecido divulgador de status quo firmado com que iniciámos a nossa história – diferente género, mesmo grau. Note-se a diferença de tratamento que o editor faz entre o crítico constituído e a opinião de um anónimo na mesmíssima página (no qual este último sucintamente concorda com o sentido da crítica):

Anónimo disse...
realmente os desenhos são horrorosos...

Mário Miguel de Freitas disse...
Anónimo,
V.Exa. é um imbecil, e a sua imbecilidade só é superada pela sua cobardia.

E viveram felizes para sempre.

O meio é pequeno, fechado e desprovido de humor: apenas cremos na crítica dos que o atravessam vindos de algum lado e a caminho de algures - ao contrário dos que por cá montaram o seu arraial-, pois não será o receio da convivência forçada que os amordaçará no tento da língua. Até lá, não há espaço para uma crítica credível quando todos são críticos ainda que ninguém critique.

Enquanto esperamos por alguém com vontade suficiente para acusar sem rodeios “isto é um insulto aos leitores e uma total perda do seu tempo”, da nossa parte, e sem rodeios, aqui insultamos os leitores numa total perda do meu tempo:

Journal for the Advancement of Portuguese Comics 2010-present, Spring, 2014, Issue 6

State of the Art III: middle finger up in the air (critic edition)

You and yo mamma Independent Scholar





Por via da banalidade do esforço necessário ao cumprimento de tal feito, optamos neste state of the art por não enternecer o leitor com a reedição de listas das contemporaneidades bedêfilas do ano em trânsito. Propomos em seu lugar uma abordagem mais díspar mas quiçá mais estimulante para aqueles que anseiam por algum teor qualitativo que se erga de entre as inúmeras vaidades de ocasião que com extremo cuidado circundam o tema que hoje nos ocupa –

tomaremos pois o pulso ao formato,
por via do seu interveniente notoriamente mais desprezável:
o crítico.

À constante arduidade de encontrar objeto que nos retorça uma ideia original, uma descoberta recente, uma trajetória firmada - e sobretudo, uma consequência-, encontramos igual paralelo no mesmo vozeirar constante da espécie em causa sobre as supramencionadas dificuldades de materializar genuíno entusiasmo onde este persiste em não se expor. Mas - e é da nossa preposição examinar tal curioso facto - em momento algum a altercação alcança inferências ao seu papel na esterilidade geral que grassa o meio. A ironia.

Em contrário à sensatez desejável e por intimidação de um coabitação imposta que na nossa hipótese atribuímos à peculiar realidade dos nossos cómicos, na relação entre autor e leitor entranha-se vigorosamente esta figura fundamentalmente dispensável. A tal ponto e de tal modo, que propomos que não se terá entranhado então o suficiente.

Perante a impossibilidade de se anular a sua acepção, interpretemos a condição que aflige certas personalidades e através dessa análise retornemos aos cómicos e ao seu fado. Propomos assim que haverá uma relação pouco abordada de causa e consequência entre os críticos que temos e a banda desenhada que merecemos: a qualidade da BD produzida é equiparável à qualidade da crítica que lhe é feita.

Persistimos na nossa tese de que a débil condição da BD neste país não deriva de uma qualquer imbecilidade do público que a desconsidera mas da insuficiência inerente à BD com que são brindados, na qual devemos agregar à responsabilidade do autor e editor a do crítico sazonal, cuja intervenção no especto bedéfilo consegue ser mais sentida do que a dos próprios autores, particularmente silenciosos em fóruns públicos quando comparados com essa outra laia. Somos assim forçados a ajuizar a BD nacional numa inversão de encadeamentos e iniciando a anatomização da sua qualidade pela crítica que a procede. Nesse sentido é-nos claro que os autores desamparam a intenção de produzir para os potenciais leitores e anuem perante um comité que roga a exclusividade de juízos mas é incapaz de articular um discurso mais eloquente além da conversa de café, aos quais os nossos artistas lhes servem como obra meros rabiscos de guardanapo – não lhes escapará a ironia da notória congregação natural dos nossos críticos em torno de mesas de restauração…

Abordemos então as falhas da classe, começando pela sua esquizofrenia. A sua dualidade de critérios é-nos tão despudoradamente elementar que nos pesa o absurdo da enorme capacidade de desassociação entre o que os críticos enunciam em pose e o que praticam em prosa. Por contraposto à nossa acepção pessoal de banda desenhada já aduzida aqui em outras ocasiões - que pretendemos livre de especialistas, não subordina a estatutos e sobretudo descomprometida de fórmulas mas fervorosa nos desígnios-, os nossos críticos a terreiro bramam pela profissionalização da área e zelam por uma extensão artística na qual a envolvem em misto de preceito e ilusão indulgente, mas cuja prática não dissimula uma conduta bem mais próxima aos nossos próprios preceitos de BD sem que o assumam ou, pior, o compreendam: fora raras exceções, a crítica nacional de BD é descomprometida, desprovida de uma especialidade, não possui estatuto por carência de sistema formal, sustentado, científico ou académico que a valide. Em resumo, a crítica nacional de banda desenhada é amadora, inconsequente, incoerente, irrelevante. É assim que gostamos da nossa BD, mas é assim também que os críticos se padecem ainda que não seja assim que se julgam. Valerá a pena lembrar: a crítica não é apenas para as crianças.

Não os podendo dispersar, façamos-lhes o mesmo que eles pretendem fazer à BD: profissionalizem-se. Todos agradecíamos, e aqueles que perdessem o pio no reconhecimento não seriam seguramente lamentados pelos demais. Mas...

Tendo identificado a correlação entre BD e massa crítica que a desafie ou motive e lhe eleve os padrões, bastaria o investimento na sua erudição para mudar o pobre estado da crítica bedéfila? Mera retórica para queimar parágrafos: obviamente que não. Intrínseco ao meio estão limites próprios que não permitem outra crítica além da basta mediocridade.

Por dois motivos.

Primeiro, a bedéfilia que nos aflige é exígua no alcance e não possui as condições necessárias para sustentar vida inteligente de grande porte - qualquer crítico digno desse nome veria a sua dieta reduzida para níveis incompatíveis, tendo rapidamente de procurar substância em qualquer outra área. Não se podendo viver da BD neste país, o crítico não se exclui à lista e nesse abeiramento é-nos seguro dividir os espécimes da sua classe entre uma grossa maioria pautada pela vulgaridade, e raras –raríssimas! nós contámos um!- exceções de valor cujo âmbito extravasa necessariamente o pequeno charco onde molhamos os pés por brincadeira. Sem tema, sem objecto, sem motivo, quem por cá fica é porque não tem melhor sítio para ir.

E, em segundo lugar, este não é um lugar para afrontar os nativos. Estes agitam-se ao menor indício de quebra de protocolo às tréguas de concordância negociadas por anos de discussão em prole da significância do meio, e nesta paz podre um crítico não pode assumir uma posição de ruptura sem automaticamente provocar o seu desterro da tribo pela ofensa cometida. E sem afrontamento não há verdadeira crítica, apenas o frete onde os nativos o admitem.

Por nós, insistimos: dispensemo-los. Mas a havê-los, instruam-nos.
E no processo cresçam-lhes um par.

on BEING NEGATIVE