sorry folks: u forgot tha say 'please'
voltaremos quando vos for mais inconveniente

first time? drop dead.
come back on ur 3rd time around...

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it gets new

Dos cartoons editorais e da BD. Da imprensa, punx e nazismos. Dos arstys e do $$$. Dos novos (sigh) tempos que se avizinham. À vossa atenção:

O humorismo e a caricatura vão ser o terreno privilegiado de uma ruptura e intervenção (...), em que se entrechocam os posicionamentos mais diversos. Essa opção ter-se-á devido a uma conjugação de factores em que avultam a expansão da imprensa, a influência de correntes estrangeiras, questões de sensibilidade, a oportunidade de mais imediata reflexão e crítica social e experimentação estética, para além de se tratar de uma forma importante de intervir nos meios sociais (...) não deixando de ser igualmente importante a vertente económica, a intensa actividade gráfica como ganha-pão inicial de muitos artistas.

Todos os destaques nossos. Um retrato dos nossos tempos? Passa, mas não, citamos o mesmo "Das Conferências do Casino à Filosofia de Ponta" ago 2000  a propósito do Modernismo, início de século passado, especificamente do "período particularmente intenso e fervilhante da I República portuguesa (1910-1926)". It does get old.

Nada de novo abaixo do Sol: vezes e vezes sem conta voltamos onde já estivemos -  se a espiral se faz para dentro ao encontro de um centro único ou para fora cada vez mais aberta os nossos filósofos e cientistas ainda estão pode decidir. O que nos interessa é mesmo a ausência de novidade numa altura que os media (re)descobrem os nazis e que esses afinal nunca foram embora.

A deixa também cobre os ditos filósofos, acresce sociólogos, politólogos, economistas e todas as variações do estudo do Homem e suas manifestações, com especial menção honrosa aos que se debruçam sobre Arte e Cultura, aquele subproduto da expressão de vontades particular aos hominídeos – excluímos da preposição os cientistas que lidam com leis universais da física e química que ignoram as apetências da espécie. Compreende particularmente a crítica, especificamente a sua inutilidade avaliada num hierarquia de importâncias: uma avaliação histórica isenta de presunções conclui que a arte mais prestigiosa tem atrás de si o $$$, a mais interessante o impulso criador. Em ambos o crítico é uma adenda que se tenta esgueirar em cena: não só as instituições, patronos e produtores felizes ficariam de não os aturar –bastar-lhes-iam os divulgadores- como o criador cuja obra jorra de dentro das demais vezes dispensa um público, quando mais um profissional de opiniões alheadas.

Mas o nosso registo não é apenas um diss ao crítico – já fizemos tantos, nada de novo aqui também – e sim outra entrada às teses. O excerto inicial é um retrato moderno além de modernista: também hoje o humor e a caricatura estão de volta em escalas de importância como ferramenta de intervenção nos meios sociais sobre os mais diversos posicionamentos yadda yadda yadda – não nos vamos repetir: já leste acima, e de repetições basta-nos a História. A novidade? Porque os ciclos são espirais e não círculos, algo diferente ocorre nesta volta, uma que volta a combinar comics e cartoons mas acresce-lhe uma urgência desconhecida à impressão em papel de meados do século XIX. Enter o digital e as redes sociais e novos constrangimentos moldam o formato como meio de expressão. Directamente para case-study, como essa velocidade aliada à relevância da imagem desenhada popularizada – e massificada - como crítica social se destila naquele artefacto visual por excelência da web: o meme.

Emily Flake in "Political Cartooning in the Age of Trump" 17 ago 2017

Vemos-nos no próximo capítulo :)

CONTINUAR

realismo capitalista 5

CAPÍTULO 5:
"Não te apegues a nada"

Desenvolvendo da politização da saúde mental e capitalismo: Mark Fisher distingue entre a instanciação neuronal das doenças mentais e as suas causas, anteriores e exteriores ao indivíduo, exigindo uma explicação social e por conseguinte política. A ontologia que governa a sociedade moderna nega a possibilidade de uma origem social dos distúrbios mentais considerando-os do foro individual, um problema químico-biológico inerente ao sujeito – uma recusa da qual recolhe inclusive grandes benefícios: os mais imediatos e palpáveis na forma de lucros crescentes de uma indústria farmacêutica e serviços derivados, e implicitamente a atomatização do indivíduo reforça a ideologia da qual o capitalismo prospera. Pela politização da saúde mental o autor espera encontrar a possibilidade de desafiar o realismo capitalista nas suas discrepâncias ao Real, e tece paralelos entre as políticas neoliberais e o aumento exponencial de stress mental registado na população das sociedades mais implicadas nessas, principalmente na banalização –como em "cada vez mais comuns"- de perturbações do foro psicológico. Regressando à esquizofrenia como limites extremos do capitalismo (Deleuze e Guattari), cita Marazzi e as desordens bipolares como aflição central do Capitalismo – ele próprio bipolar nas suas oscilações incessantes de crescimento e queda, e sobretudo porque como nenhum outro sistema social que o precedeu se alimenta e simultaneamente reproduz os estados de espírito das populações.

Without delirium and confidence, capital could not funcion.

Voltaremos ao Marazzi mas enter Oliver James com o seu "The Selfish Capitalist", no qual conclui após a investigação feita que o aumento significativo dos últimos 25 anos (*) é atribuível às politicas e cultura inerente do sistema identificado no título do seu livro.

* Isto das datas: contas à publicação original do livro, não à nossa...

The Selfish Capitalist toxins that are the most poisonous to well-being are the systematic encouragement of the ideas that material affluence is the key to fulfillment, that only the affluent are winners and that access to the top is open to anyone willing to work hard enough, regardless of their familial, ethnic or social background – and if you do not succeed, there is only one person to blame.

Nota extra: no mesmo excerto acima reproduzido, imediatamente antes é-nos dito que uma pessoa nascida em 1958 tinha mais hipóteses de progressão social através da educação que uma pessoa nascida na década de 70. Ah, educação + $$$ gone wrong.

Voltemos pois a Marazzi com uma analogia que nos servirá de introdução às comparações de MF entre Fordismo e pós-Fordismo, dois tipos de capitalismo na fronteira dos quais se abre a possibilidade de desconstrução do seu pressuposto realismo pela corelação às doenças mentais. Como os judeus do antigo testamento libertos da escravidão no Egipto, diz-nos, os trabalhadores modernos deambulam agora livres no deserto, abandonados e confusos sem saber para onde se derigir. Ou, em analogia pop mais markfishiana, a diferença entre fordismo e pós-fordismo adiantada na distinção entre os filmes de gangsters de Francis Ford Coppola e Martin Scorsese, e o "Heat" de Michael Mann. Notamos, tudo filmes de gangsters. Se os primeiros retratam uma atmosfera de tradições, relações, famílias, lealdade, o último é estéril em qualquer tipo de apego pessoal: todas as relações são profissionais e desprovidas de sentimentos pessoais. Se o "Padrinho" remete para uma ligação às raízes ancestrais, os criminosos de "Heat" não possuem história ou afinidade com a sua cidade – uma cidade também desprovida de referências e toda ela um longo conglomerado de franchisings que se estende até onde a vista alcança. Neste não existe um chefe mafioso que preside a uma hierarquia barroca governada por códigos de conduta herdados de uma tradição de honra e respeito, são agora especialistas empreendedores-especuladores, técnicos do crime sem elos familiares que apenas se encontram unidos pela perspectiva de lucro futuro. O seu arranjo é temporário e pragmático, compreendem a sua posição de peças substituíveis  numa maquinaria maior sem qualquer garantia, em choque frontal com os goodfellows sedentários, sentimentais, indissociáveis da comunidade a que pertenciam. Como num sistema fordiano, os trabalhadores estão fixos à sua função dentro de uma comunidade estável, no novo sistema pós-fordiano estão por sua conta e sem amarras ou elos aos restantes – ie, flexibilidade, ie, precariedade. Enter consequências. Richard Sennett e o "The Corrosion of Character: The Personal Consequences  of Work in the New Capitalism": já não existe "longo termo", onde antes o trabalhador podia adquirir um conjunto de competências e progredir numa cadeia hierárquica rígida, agora salta de emprego em emprego, função em função, obrigado a readquirir novas competências, embebido em modelos hierárquicos intencionalmente descentralizados que tornam impossível o planear de um futuro a longo prazo - segway à saúde mental.

No capitalismo fabril a comunicação sem controlo entre trabalhadores ocorre apenas nos seus tempos livres – momentos de pausa, casa-de-banho, fim do dia de trabalho, quando estão envolvidos em algum acto de sabotagem–, no late capitalism o fluxo de informação torna-se a nova linha de montagem -as pessoas trabalham comunicando- contribuindo não só para o clima de vigilância entre pares como para a dissolução da fronteira entre trabalho e vida pessoal. Essa desintegração de padrões estáveis de trabalho e a restruturação de modelos de produção e distribuição afecta o sistema nervoso dos indivíduos. Parte consequência dos desejos dos trabalhadores de não estarem presos toda a sua vida à mesma fábrica –esse desejo tem implicações na forma como a esquerda pode ou não apresentar-se como alternativa ao novo -vêem-se de repente empregados num sistema de trabalho de curto-prazo que privilegia a produção just-in-time  e incapazes de prever e planear o seu futuro –instabilidade institucionalizada.

Fim do presente chapter. Próximo: da relação da saúde mental e paralelos que podem ser feitos entre a incidência de doenças mentais e os padrões de avaliação de performance dos trabalhadores num sistema de exploração pós-capitalista.

Iniciamos esta série de registos com a letra dos The Coup, por esta altura parece-nos apropriado regressar a essa em toda a sua plenitude. Dos teens, sem opções ou aborrecidos pelo matrix de estímulo anti-social que os força à procura do prazer, da educação, dos docentes e autoridades, das falsas esperanças e profecias que se cumprem, do sistema, de químicos e outras substâncias medicação e farmacêuticas, do bipolar, da precariedade, do realismo capitalista e falsas realidades, de gangsters, crime e castigo, do $$$, de elites, C.E.O.s e precários, de controlo e vigilância, da atomitização do indivíduo e das comunidades, do trabalho, da sua ética e dos futuros possíveis, do consumo e do materialismo, do gangster rap e do hip-hop – o overlap é enorme como o MF há que remeter para exemplos de cultura popular.

Dizia-nos Oliver James:

"In the entrepreneurial fantasy society, the delusion is fostered that any one can be Alan Sugar or Bill Gates.

O Boots Riley confirma:

We're taught from the cradle, the Bill Gates fable.

E o chorus faz-nos repetir em uníssono:

Tear down your state, go get yo' guns, get your work up: we are the ones

♪ We, we are the ones
♪ We'll seal your fate, tear down your state, go get yo' guns
♪ We, we came to fight
♪ It's yo' disgrace, smash up your place, that's just polite

♪ We, we are the ones
♪ We'll seal your fate, tear down your state, go get yo' guns
♪ We, we came to fight
♪ It's yo' disgrace, smash up your place, that's just polite

♪ Once upon a time when crack was gold
♪ And hip-hop was not yet platinum sold
♪ I scoured the streets for stacks to fold
♪ My mood like my hair was relaxed and blowed

♪ I hated police and my teachers were beasts
♪ My heat in the trunk of the classic Caprice
♪ The one university, I knew the deal
♪ So I cooked it, bagged it, put it on sale

♪ Now philosophically you'd be opposed
♪ To one inhaling coke via mouth or the nose
♪ But economically I would propose
♪ That you go eat a dick as employment froze

♪ And I felt like an abandoned child
♪ Left to fend for myself in the wild
♪ While every courtroom, judge and gavel
♪ Were there to bury me under the gravel

♪ Or at the bottom of the finest malt ale
♪ Observe, you'll find without fail
♪ That in every neighborhood and penitentiary
♪ There exists many others who are similar to me and

♪ We, we are the ones
♪ We'll seal your fate, tear down your state, go get yo' guns
♪ We, we came to fight
♪ It's yo' disgrace, smash up your place, that's just polite

♪ In later years I lost some peers
♪ Who mixed burners with Belvedere
♪ And took shots from gung-ho cashiers
♪ The world was cold yet hell was near

♪ So I seek for a kilo
♪ And my stack got a little bit taller like Skee-Lo
♪ A street C.E.O.
♪ There was all of this hell well and not one hero

♪ The intensity was fortified
♪ As I clenched five digits on the forty-five
♪ Barely down at the retail store, I would detail more
♪ But I don't wish this action to be glorified

♪ There was a plan I was eager to listen
♪ To not sleep in the park in the fetal position
♪ Having to wipe off canine fecal emission
♪ Otherwise I'd survive without legal permission

♪ It's an equal division and then we go to prison
♪ Which is a little decision
♪ All I wanted was a Regal to glisten
♪ And my kids would have meat in the kitchen
♪ And complete ammunition
♪ It's a given once the people are driven that

♪ We, we are the ones
♪ We'll seal your fate, tear down your state, go, get yo' guns
♪ We, we came to fight
♪ It's yo' disgrace, smash up your place, that's just polite

♪ Get your work up, get your work up
♪ Get your work up, get your work up
♪ Get your work up, get your work up
♪ Get your work up, get your work up

♪ Get your work up, get your work up
♪ Get your work up, get your work up
♪ Get your work up, get your work up
♪ Get your work up, get your work up

♪ We are born from the mildew, the rust, the heathenous lust
♪ The dreams in the dust, the evidence flushed
♪ The grieving is just, they're thieving from us
♪ Insulted and cussed, this evening we bust

♪ Appears unstable and under the table
♪ We like free speech but we love free cable
♪ We're taught from the cradle, the Bill Gates fable
♪ Which leads to high speeds in Buick LeSables

♪ We have no excuses just great alibis
♪ And poker faces you can't analyze
♪ Our politicians sell our soul and our cries
♪ With blood on their hands, they can't sanitize

We're the have-nots but we're also the gon'-gets
Not just talkin' 'bout the Lex with the chrome kits
You can get that by yourself with the four-fifth
Let's all own shit then toast with Patron hits

♪ We, we are the ones
♪ We'll seal your fate, tear down your state, go, get yo' guns
♪ We, we came to fight
♪ It's yo' disgrace, smash up your place, that's just polite

♪ We, we are the ones
♪ We'll seal your fate, tear down your state, go, get yo' guns
♪ We, we came to fight
♪ It's yo' disgrace, smash up your place, that's just polite

♪ Get your work up, get your work up
♪ Get your work up, get your work up
♪ Get your work up, get your work up
♪ Get your work up, get your work up

♪ Get your work up, get your work up
♪ Get your work up, get your work up
♪ Get your work up, get your work up
♪ Get your work up, get your work up

it gets new

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trumpas (un)covered

Porque estamos em silly season e não há notícias -sad joke from back in tha dayz- correm hoje pelas webs as capas de agosto de algumas revistas que parecem ter todas um tema recorrente. Interessa-nos às teses o registo cruzado de media, ilustração, politics e nazis: demasiadas check-boxes para deixar passar. Sim, são ilustrações mas entendidas como cartoons e o princípio é o mesmo: o poder da imagem desenhada para comunicação de massas.

A acrescentar às provas para remeter mais tarde, e alguém deu-se ao trabalho de recolher muitas outras capas do mesmo tema aqui.

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realismo capitalista 4

CAPÍTULO 4:
"Impotência reflexiva, imobilização e comunismo liberal"

Derf in "Trashed"

Class war has continued to be fought, but only by one side: the wealthy.

Dois eixos neste chapter: imobilidade vs comunismo liberal - senão mesmo unidos numa frente de impotência.

Dos primeiros, começamos pelos teens no seu papel de aluno como principal manifestação: resignados ao seu destino por impotência reflexiva e não por apatia ou cinismo - eles compreendem as más perspectivas que o futuro lhes reserva e sabem que nada podem fazer em relação a essa fatalidade. Passo dois e twist principal: essa é uma profecia que se cumpre sozinha, a reflexão não é uma mera observação passiva mas um instrumento à sua concretização. Concluindo dos casos de depressão endémicos na Britânia e patologias correlacionadas que assolam a população e incidem em idades cada vez mais jovens, MF diz-nos que não será um exagero em breve reclassificar o ser-se teen como uma doença – acto que esvazia a sua possibilidade de politização já que o tenta circunscrever no domínio da saúde e lhe nega qualquer casualidade sistémica social.

MF descreve o ser-se jovem numa sociedade ocidental pós-capitalista como depressão hedónica: a inabilidade de conseguir fazer qualquer coisa que não a persecução de prazer - o teen é permanentemente assolado pela impressão que algo lhe falta, mas incapaz de conceber que esse algo possa ser alcançado além do princípio do prazer.

A contribuir para essa malformação (palavra nossa) é indissociável a posição estrutural ambígua do aluno, encalhado entre o seu antigo papel de sujeito à disciplina da autoridade e o seu novo status de consumidor de serviços. Um ‘Postscript on Societies of Control’ depois, com Deleuze a construir sobre Foucault, e somos introduzidos na distinção entre sociedades disciplinadoras que se organizam em espaços fechados e sociedades de controlo que dispensam essas instituições e dispersam-se em corporações que operam através de um adiamento contínuo (*).

* Educação como um contínuo para toda a vida, formação profissional enquanto capaz de trabalhar, "work you take home with you: working from home, homing from work".

Nesta sociedade de controlo a vigilância externa é exercida internamente, e o controlo apenas possível porque os implicados são seus cúmplices: trabalhadores vigiam trabalhadores. Expandindo além do teen MF exemplifica com os próprios docentes, igualmente encalhados entre o entertainer facilitador e a autoridade disciplinadora, pais suplentes para teens só minimamente socializados. De docências adiante, de controlo Deleuze também descreve esta sociedade como baseada num sistema de dívidas que encarceram os seus sujeitos em vez de barras de prisão menos metafóricas e aqui novamente devolvendo ao pessimismo dos teens:

Pay for your own exploitation, the logic insists- get into debt so you can get the same McJob you could have walked into if you’d left school at sixteen...

É aborrecido, convenhamos. To be bored então, ilustrado com comportamentos típicos em sala de aula. Confrontados com a leitura de um texto, o aborrecimento que assola o aluno não é o conteúdo deste mas o próprio acto de ler que o remove do contínuo de "sensation-stimulus matrix" do texting no telemóvel, do Youtube ou do fast-food – de ser negado, nem que por um instante, do fluxo constante de gratificação on-demand. Os headphones na aula são outro exemplo: a música que ouvem não é experienciada como algo que pode ter um impacto no espaço público, mas uma reserva de privacidade para o qual se recolhem, uma muralha contra o social.

Consequência da dependência ao entretenimento constante, o teen é nervoso, irrequieto, incapaz de se concentrar e agente de uma interpassividade (*) agitada.

* Torna-se mais interessante quando introduzirmos o big Other – não confundir com o Big Brother.

Interpassivity is a state of passivity in the presence of the potential of interactivity. The purpose of the concept is to "explain how works of art and media sometimes seem to provide for their own reception. The term was coined by Robert Pfaller and Slavoj Žižek, and combines the words "interactivity" and "passivity" (...) accounting for diverse cultural phenomena where delegation of consumption and enjoyment stands central.
in Wikipedia

E a deslizar eerily ao pós-modernismo de Jameson que proclamava a propósito da fragmentação da subjectividade na emergência do complexo industrial de entretenimento um eterno presente, que MF complementa com a descrição do teen como -

A generation born into that ahistorical, anti-mnemonic blip culture – a generation (...) for whom time has always come ready-cut into digital micro-slices.

‘Writing has never been capitalism’s thing. Capitalism is profoundly illiterate.’
Deleuze & Guattari in "Anti-Oedipus"

E a palavra "digital" não vos passou despercebida ali, certamente? A nós também não, particularmente aplicada no contexto da cultura: é a nossa deixa. Às nossas teses, o registo: digital, literacia, imagens.

Teenagers process capital’s image-dense data very effectiveky without the need to read – slogan recognition is sufficient to navigate the net-mobile magazine informational plane.

E stand-by nessa frente. Damos agora um salto ao segundo eixo enunciado no início: os comunistas liberais, aos quais MF chega por segway à diferença entre os estudantes britânicos – pávidos na sua sorte- e os franceses, muito mais reivindicativos e militantes. Ainda que, como Mark os define, a sua agitação não resulta de um desejo de mudança e sim de retorno. Antes então dos lib-commies, e para uma melhor compreensão destes, MF descreve-nos os herdeiros do maio de ’68, versão imobilizadores: os movimentos nostálgicos que pretendem um regresso ao estado social forte com uma intervenção activa do Estado.

Contraposto aos imobilizadores e reclamando-se igualmente herdeiros do mesmo mês de ’68 nas suas preocupações sociais, os comunistas liberais pretendem (pós)modernizar práticas de trabalho e emprego e empregam em espírito máximas como "being smart". Uma máxima que não podemos censurar de modo algum no plano teórico, mas Žižek trata de problematizar as suas assunções, descrevendo o epíteto de dinâmico e nómada contra uma burocracia centralizadora, na crença do diálogo e cooperação contra a autoridade central, flexibilidade contra rotina, cultura e conhecimento contra a produção industrial, interação espontânea contra hierarquia fixa. Again, nada a declarar não estivéssemos três capítulos dentro do Realismo Capitalista, à luz do qual a descrição anterior se posiciona a um arrebate por parte do Capitalismo, e poucas linhas adiante MF confirma-nos que o comunismo liberal é agora a ideologia prevalecente do capitalismo. Na sua urgência pelo novo,  adoptaram estratégias típicas do pós-capitalismo, ainda que neste os termos acima sejam sucintamente mais reconhecíveis como precariedade.

Portanto, sem alternativas, parece. Onde os imobilizadores implicitamente concedem que o capitalismo apenas pode ser resistido nunca vencido, essencialmente desejando o regresso a modelos Fordianos de capitalismo e um regime autoritário- e nunca é sexy pregar a resistência ao novo-, os comunistas liberais não podem fazer o caso pela alternativa apelando à mesma flexibilidade e descentralização com que o Capital erodiu o tecido social. A solução surge no desapropriar do novo ao capitalismo sem recorrer aos seus métodos e instrumentos conducentes à condição presente onde nos encontramos. De Badiou e David Harvey retoma-se a associação entre neoliberalismo e o termo restauração, associação a privilegiar para corrigir a ideia que o Capitalismo é o único sistema a potenciar o novo,  pretendendo-se deixar explícito que as políticas neoliberais apenas representam o regresso ao poder de classe e privilégio, projecto político para restabelecer as condições de acumulação de capital e o poder das elites.

Fim de capítulo. Uma para os teens -

♪ if you dont like the system put your middle finger up
♪ building a bigger school - blitzing these bastards

...mas queremos terminar com um extra, não sem alguma ironia e sátira da nossa parte, acrescentando algumas linhas com as poucas que nos restam, e correndo o risco de passar por um apontamento algo abstracto cremos que alguns dos que nos leem poderão esboçar um sorriso na sua leitura. Deleuze questionava-se a propósito de formas alternativas anti-controlo:

Can we already grasp the rough outlines of the coming forms, capable of threatening the joys of marketing? Many young people strangely boast of being "motivated"; they re-request apprenticeships and permanent training. It’s up to them to discover what they are being made to serve.

Ao que Mark acresce:

What must be discovered is a way out of the motivation / demotivation binary, so that disidentification from the control program registers as something other than dejected apathy.

Nesse departamento, way ahead of u folks.

realismo capitalista 5

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realismo capitalista 3

CAPÍTULO 3:
“Capitalismo e o Real”

Tecidas algumas comparações à génese do conceito, Mark Fisher compreende o realismo capitalista além de funções análogas à arte ou à publicidade: descreve-o como uma atmosfera que tudo abarca condicionando a produção de cultura, regulação do trabalho, educação (*), e agindo como uma barreira invisível que constrange o pensamento e a acção.

* Se ainda precisavam de mais razões para elegermos o seu texto à nossa atenção, ai está um three-factor.

Diz-nos MF que a possibilidade de desafiar o capitalismo perante este render à impotência dos seus sujeitos não pode ser encontrada na crítica moral: o enfâse nas formas de sofrimento que causa apenas reforçam o realismo capitalista no qual a miséria é uma inevitabilidade da realidade, cujo contraponto de esperança em acabar com esse sofrimento é rapidamente retratado como um utopismo ingénuo. No seu lugar propõe uma outra abordagem, uma que desafia o capitalismo na frente pragmática e o expõe como fantasia artificial:

Capitalist realism can only be threatened if i tis shown to be in some ways inconsistent or untenable; if, that is to say, capitalism’s ostensible ‘realism’ turns out to be nothing of the sort.

E para essa separação de águas segue-se algum name droping & concept talkin’ a preparar terreno. Indicando do contexto os últimos 30 anos, diz-nos o autor que o realismo capitalista instalou uma lógica de ‘ontologia de negócios’ que torna evidente que tudo na sociedade deve ser gerido como um negócio – incluindo a saúde e educação, à qual Mark retornará com maior ponderação adiante. A prioridade é então o desmontar dessa evidência, citando a esse efeito de um vasto arsenal de teóricos radicais, de Brecht a Foucault a Badiou, que mantêm que qualquer política emancipatória deve sempre destruir a aparência de ‘ordem natural’ e expô-la como uma mera contingência em vez de uma inevitabilidade necessária, e demonstrar que o que parece impossível de alcançar é afinal realizável.

Ie, e regressando a Žižek sobre psicanalismos de Lacan, expôr a diferença entre o Real e a realidade, onde se define o primeiro como aquilo que o segundo tenta suprimir. Ainda connosco? Boa, this is about to get real. In short, realismo como processo mediato e ideológico que suprime o real, o real como episódio irrepresentável / vazio traumático que apenas pode ser vislumbrado nas facturas e inconsistências da realidade.

Exemplos.

Catástrofes ambientais. Long cite para efeitos de indexação de motores de pesquisa no assunto...:

Environmental catastrophe is one such Real. At one level (…) climate change and the threat of resource-depletion are not being repressed as much as incorporated into advertising and marketing. What this treatment of environmental catastrophes illustrate is the fantasy structure on which capitalist realism depends: a presupposition that the resources are infinite, that the earth itself is merely a husk which capital cant at a certain point slough off like a used skin, and that the problem can be solved by the market. (…) Yet, environmental catastrophe features in late capitalist culture only as a kind of simulacra, its real implications for capitalism too traumatic to be assimilated into the system. The significance of Green critiques is that they suggest that, far from being the only viable political-economic system, capitalism is in fact primed to destroy the entire human environment.

Exemplo #2: saúde mental. Se o exemplo anterior aponta directamente aos nossos cânones este agora é 100% Mark Fisher -com um historial e bibliografia que o acompanham- no qual faz um excelente caso da saúde mental como paradigmático do funcionamento inconsistente do capitalismo a separar real do seu suposto realismo. Contrariando o pressuposto base que as doenças mentais são do foro natural e pessoal – natural como o clima, pessoal como inerente e circunscrito às especificidades do indivíduo - e recuperando das teorias radicais da década de 60 e 70 – Laing, Foulcaut, Deleuze e Guattari et al – defende que as condições mentais extremas como a esquizofrenia nada têm de natural e devem ser entendidas numa categoria política. A saúde mental deve ser politizada, principalmente as mais comuns, justamente porque se tornam cada vez mais vulgares –propagadas-, e cada vez mais difíceis de justificar sem as entender diante de um quadro social exterior ao indivíduo. Com o exemplo da depressãoeee voltamos aOS POSITIVOS-, a condição mais tratada nos serviços de saúde do UK natal do autor, States e outros países, estabelece-se uma correlação entre o aumento de stress mental e o capitalismo neoliberal ocidental, que exigem um reenquadrar dos problemas de saúde entre as sociedades capitalistas: em vez de os tratar como casos isolados intrínsecos ao indivíduo, procurar fora deste as causas dessa condição. Uma que encontra picos e tendências crescentes em sincronia com o capitalismo, uma que é cada vez mais generalizada, e uma que afecta especialmente os mais jovens (*).

* Teens: estamos quase a chegar a vocês – mete um calmante e um pouco de paciência.

Why? Porque, como no exemplo anterior das crises ambientais, a ‘plague’ de saúde mental em sociedades capitalistas demonstra brechas real-realismo, sugere que em vez de ser o único sistema social que funciona, o capitalismo é inerentemente disfuncional e de custo operacional extremamente elevado em termos humanos – se, ie, o sofrimento de outros humanos não te fosse razão suficiente, mas dessa crítica moral vimos atrás.
 
Terceiro exemplo: burocracia. O neoliberalismo deveria ter acabado com a burocracia estalinista que acusava o sistema de planificação central estatal mas não o fez: piorou-a, privatizando-a e repartindo-a em inúmeras instâncias desconexas infinitamente mais frustantes. Pensem “call-center”, disseminado a todos serviços que tocam o quotidiano dos cidadãos, onde se segue um guião, impossível desviar desse, e onde nenhuma autoridade –ie, “responsabilidade”- se consegue convocar à resolução de problemas. Outra brecha no realismo capitalista ao qual voltaremos adiante.

Exemplo final em final de capítulo: educação. E, fazendo nossas as suas palavras:

I will draw extensively on my experiences there.

Fim cap.

ainda o "Vapor" de Max

realismo parte vi

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