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Porque estamos em silly season e não há notícias -sad joke from back in tha dayz- correm hoje pelas webs as capas de agosto de algumas revistas que parecem ter todas um tema recorrente. Interessa-nos às teses o registo cruzado de media, ilustração, politics e nazis: demasiadas check-boxes para deixar passar. Sim, são ilustrações mas entendidas como cartoons e o princípio é o mesmo: o poder da imagem desenhada para comunicação de massas.

A acrescentar às provas para remeter mais tarde, e alguém deu-se ao trabalho de recolher muitas outras capas do mesmo tema aqui.

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realismo capitalista 4

CAPÍTULO 4:
"Impotência reflexiva, imobilização e comunismo liberal"

Derf in "Trashed"

Class war has continued to be fought, but only by one side: the wealthy.

Dois eixos neste chapter: imobilidade vs comunismo liberal - senão mesmo unidos numa frente de impotência.

Dos primeiros, começamos pelos teens no seu papel de aluno como principal manifestação: resignados ao seu destino por impotência reflexiva e não por apatia ou cinismo - eles compreendem as más perspectivas que o futuro lhes reserva e sabem que nada podem fazer em relação a essa fatalidade. Passo dois e twist principal: essa é uma profecia que se cumpre sozinha, a reflexão não é uma mera observação passiva mas um instrumento à sua concretização. Concluindo dos casos de depressão endémicos na Britânia e patologias correlacionadas que assolam a população e incidem em idades cada vez mais jovens, MF diz-nos que não será um exagero em breve reclassificar o ser-se teen como uma doença – acto que esvazia a sua possibilidade de politização já que o tenta circunscrever no domínio da saúde e lhe nega qualquer casualidade sistémica social.

MF descreve o ser-se jovem numa sociedade ocidental pós-capitalista como depressão hedónica: a inabilidade de conseguir fazer qualquer coisa que não a persecução de prazer - o teen é permanentemente assolado pela impressão que algo lhe falta, mas incapaz de conceber que esse algo possa ser alcançado além do princípio do prazer.

A contribuir para essa malformação (palavra nossa) é indissociável a posição estrutural ambígua do aluno, encalhado entre o seu antigo papel de sujeito à disciplina da autoridade e o seu novo status de consumidor de serviços. Um ‘Postscript on Societies of Control’ depois, com Deleuze a construir sobre Foucault, e somos introduzidos na distinção entre sociedades disciplinadoras que se organizam em espaços fechados e sociedades de controlo que dispensam essas instituições e dispersam-se em corporações que operam através de um adiamento contínuo (*).

* Educação como um contínuo para toda a vida, formação profissional enquanto capaz de trabalhar, "work you take home with you: working from home, homing from work".

Nesta sociedade de controlo a vigilância externa é exercida internamente, e o controlo apenas possível porque os implicados são seus cúmplices: trabalhadores vigiam trabalhadores. Expandindo além do teen MF exemplifica com os próprios docentes, igualmente encalhados entre o entertainer facilitador e a autoridade disciplinadora, pais suplentes para teens só minimamente socializados. De docências adiante, de controlo Deleuze também descreve esta sociedade como baseada num sistema de dívidas que encarceram os seus sujeitos em vez de barras de prisão menos metafóricas e aqui novamente devolvendo ao pessimismo dos teens:

Pay for your own exploitation, the logic insists- get into debt so you can get the same McJob you could have walked into if you’d left school at sixteen...

É aborrecido, convenhamos. To be bored então, ilustrado com comportamentos típicos em sala de aula. Confrontados com a leitura de um texto, o aborrecimento que assola o aluno não é o conteúdo deste mas o próprio acto de ler que o remove do contínuo de "sensation-stimulus matrix" do texting no telemóvel, do Youtube ou do fast-food – de ser negado, nem que por um instante, do fluxo constante de gratificação on-demand. Os headphones na aula são outro exemplo: a música que ouvem não é experienciada como algo que pode ter um impacto no espaço público, mas uma reserva de privacidade para o qual se recolhem, uma muralha contra o social.

Consequência da dependência ao entretenimento constante, o teen é nervoso, irrequieto, incapaz de se concentrar e agente de uma interpassividade (*) agitada.

* Torna-se mais interessante quando introduzirmos o big Other – não confundir com o Big Brother.

Interpassivity is a state of passivity in the presence of the potential of interactivity. The purpose of the concept is to "explain how works of art and media sometimes seem to provide for their own reception. The term was coined by Robert Pfaller and Slavoj Žižek, and combines the words "interactivity" and "passivity" (...) accounting for diverse cultural phenomena where delegation of consumption and enjoyment stands central.
in Wikipedia

E a deslizar eerily ao pós-modernismo de Jameson que proclamava a propósito da fragmentação da subjectividade na emergência do complexo industrial de entretenimento um eterno presente, que MF complementa com a descrição do teen como -

A generation born into that ahistorical, anti-mnemonic blip culture – a generation (...) for whom time has always come ready-cut into digital micro-slices.

‘Writing has never been capitalism’s thing. Capitalism is profoundly illiterate.’
Deleuze & Guattari in "Anti-Oedipus"

E a palavra "digital" não vos passou despercebida ali, certamente? A nós também não, particularmente aplicada no contexto da cultura: é a nossa deixa. Às nossas teses, o registo: digital, literacia, imagens.

Teenagers process capital’s image-dense data very effectiveky without the need to read – slogan recognition is sufficient to navigate the net-mobile magazine informational plane.

E stand-by nessa frente. Damos agora um salto ao segundo eixo enunciado no início: os comunistas liberais, aos quais MF chega por segway à diferença entre os estudantes britânicos – pávidos na sua sorte- e os franceses, muito mais reivindicativos e militantes. Ainda que, como Mark os define, a sua agitação não resulta de um desejo de mudança e sim de retorno. Antes então dos lib-commies, e para uma melhor compreensão destes, MF descreve-nos os herdeiros do maio de ’68, versão imobilizadores: os movimentos nostálgicos que pretendem um regresso ao estado social forte com uma intervenção activa do Estado.

Contraposto aos imobilizadores e reclamando-se igualmente herdeiros do mesmo mês de ’68 nas suas preocupações sociais, os comunistas liberais pretendem (pós)modernizar práticas de trabalho e emprego e empregam em espírito máximas como "being smart". Uma máxima que não podemos censurar de modo algum no plano teórico, mas Žižek trata de problematizar as suas assunções, descrevendo o epíteto de dinâmico e nómada contra uma burocracia centralizadora, na crença do diálogo e cooperação contra a autoridade central, flexibilidade contra rotina, cultura e conhecimento contra a produção industrial, interação espontânea contra hierarquia fixa. Again, nada a declarar não estivéssemos três capítulos dentro do Realismo Capitalista, à luz do qual a descrição anterior se posiciona a um arrebate por parte do Capitalismo, e poucas linhas adiante MF confirma-nos que o comunismo liberal é agora a ideologia prevalecente do capitalismo. Na sua urgência pelo novo,  adoptaram estratégias típicas do pós-capitalismo, ainda que neste os termos acima sejam sucintamente mais reconhecíveis como precariedade.

Portanto, sem alternativas, parece. Onde os imobilizadores implicitamente concedem que o capitalismo apenas pode ser resistido nunca vencido, essencialmente desejando o regresso a modelos Fordianos de capitalismo e um regime autoritário- e nunca é sexy pregar a resistência ao novo-, os comunistas liberais não podem fazer o caso pela alternativa apelando à mesma flexibilidade e descentralização com que o Capital erodiu o tecido social. A solução surge no desapropriar do novo ao capitalismo sem recorrer aos seus métodos e instrumentos conducentes à condição presente onde nos encontramos. De Badiou e David Harvey retoma-se a associação entre neoliberalismo e o termo restauração, associação a privilegiar para corrigir a ideia que o Capitalismo é o único sistema a potenciar o novo,  pretendendo-se deixar explícito que as políticas neoliberais apenas representam o regresso ao poder de classe e privilégio, projecto político para restabelecer as condições de acumulação de capital e o poder das elites.

Fim de capítulo. Uma para os teens -

♪ if you dont like the system put your middle finger up
♪ building a bigger school - blitzing these bastards

...mas queremos terminar com um extra, não sem alguma ironia e sátira da nossa parte, acrescentando algumas linhas com as poucas que nos restam, e correndo o risco de passar por um apontamento algo abstracto cremos que alguns dos que nos leem poderão esboçar um sorriso na sua leitura. Deleuze questionava-se a propósito de formas alternativas anti-controlo:

Can we already grasp the rough outlines of the coming forms, capable of threatening the joys of marketing? Many young people strangely boast of being "motivated"; they re-request apprenticeships and permanent training. It’s up to them to discover what they are being made to serve.

Ao que Mark acresce:

What must be discovered is a way out of the motivation / demotivation binary, so that disidentification from the control program registers as something other than dejected apathy.

Nesse departamento, way ahead of u folks.

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realismo capitalista 3

CAPÍTULO 3:
“Capitalismo e o Real”

Tecidas algumas comparações à génese do conceito, Mark Fisher compreende o realismo capitalista além de funções análogas à arte ou à publicidade: descreve-o como uma atmosfera que tudo abarca condicionando a produção de cultura, regulação do trabalho, educação (*), e agindo como uma barreira invisível que constrange o pensamento e a acção.

* Se ainda precisavam de mais razões para elegermos o seu texto à nossa atenção, ai está um three-factor.

Diz-nos MF que a possibilidade de desafiar o capitalismo perante este render à impotência dos seus sujeitos não pode ser encontrada na crítica moral: o enfâse nas formas de sofrimento que causa apenas reforçam o realismo capitalista no qual a miséria é uma inevitabilidade da realidade, cujo contraponto de esperança em acabar com esse sofrimento é rapidamente retratado como um utopismo ingénuo. No seu lugar propõe uma outra abordagem, uma que desafia o capitalismo na frente pragmática e o expõe como fantasia artificial:

Capitalist realism can only be threatened if i tis shown to be in some ways inconsistent or untenable; if, that is to say, capitalism’s ostensible ‘realism’ turns out to be nothing of the sort.

E para essa separação de águas segue-se algum name droping & concept talkin’ a preparar terreno. Indicando do contexto os últimos 30 anos, diz-nos o autor que o realismo capitalista instalou uma lógica de ‘ontologia de negócios’ que torna evidente que tudo na sociedade deve ser gerido como um negócio – incluindo a saúde e educação, à qual Mark retornará com maior ponderação adiante. A prioridade é então o desmontar dessa evidência, citando a esse efeito de um vasto arsenal de teóricos radicais, de Brecht a Foucault a Badiou, que mantêm que qualquer política emancipatória deve sempre destruir a aparência de ‘ordem natural’ e expô-la como uma mera contingência em vez de uma inevitabilidade necessária, e demonstrar que o que parece impossível de alcançar é afinal realizável.

Ie, e regressando a Žižek sobre psicanalismos de Lacan, expôr a diferença entre o Real e a realidade, onde se define o primeiro como aquilo que o segundo tenta suprimir. Ainda connosco? Boa, this is about to get real. In short, realismo como processo mediato e ideológico que suprime o real, o real como episódio irrepresentável / vazio traumático que apenas pode ser vislumbrado nas facturas e inconsistências da realidade.

Exemplos.

Catástrofes ambientais. Long cite para efeitos de indexação de motores de pesquisa no assunto...:

Environmental catastrophe is one such Real. At one level (…) climate change and the threat of resource-depletion are not being repressed as much as incorporated into advertising and marketing. What this treatment of environmental catastrophes illustrate is the fantasy structure on which capitalist realism depends: a presupposition that the resources are infinite, that the earth itself is merely a husk which capital cant at a certain point slough off like a used skin, and that the problem can be solved by the market. (…) Yet, environmental catastrophe features in late capitalist culture only as a kind of simulacra, its real implications for capitalism too traumatic to be assimilated into the system. The significance of Green critiques is that they suggest that, far from being the only viable political-economic system, capitalism is in fact primed to destroy the entire human environment.

Exemplo #2: saúde mental. Se o exemplo anterior aponta directamente aos nossos cânones este agora é 100% Mark Fisher -com um historial e bibliografia que o acompanham- no qual faz um excelente caso da saúde mental como paradigmático do funcionamento inconsistente do capitalismo a separar real do seu suposto realismo. Contrariando o pressuposto base que as doenças mentais são do foro natural e pessoal – natural como o clima, pessoal como inerente e circunscrito às especificidades do indivíduo - e recuperando das teorias radicais da década de 60 e 70 – Laing, Foulcaut, Deleuze e Guattari et al – defende que as condições mentais extremas como a esquizofrenia nada têm de natural e devem ser entendidas numa categoria política. A saúde mental deve ser politizada, principalmente as mais comuns, justamente porque se tornam cada vez mais vulgares –propagadas-, e cada vez mais difíceis de justificar sem as entender diante de um quadro social exterior ao indivíduo. Com o exemplo da depressãoeee voltamos aOS POSITIVOS-, a condição mais tratada nos serviços de saúde do UK natal do autor, States e outros países, estabelece-se uma correlação entre o aumento de stress mental e o capitalismo neoliberal ocidental, que exigem um reenquadrar dos problemas de saúde entre as sociedades capitalistas: em vez de os tratar como casos isolados intrínsecos ao indivíduo, procurar fora deste as causas dessa condição. Uma que encontra picos e tendências crescentes em sincronia com o capitalismo, uma que é cada vez mais generalizada, e uma que afecta especialmente os mais jovens (*).

* Teens: estamos quase a chegar a vocês – mete um calmante e um pouco de paciência.

Why? Porque, como no exemplo anterior das crises ambientais, a ‘plague’ de saúde mental em sociedades capitalistas demonstra brechas real-realismo, sugere que em vez de ser o único sistema social que funciona, o capitalismo é inerentemente disfuncional e de custo operacional extremamente elevado em termos humanos – se, ie, o sofrimento de outros humanos não te fosse razão suficiente, mas dessa crítica moral vimos atrás.
 
Terceiro exemplo: burocracia. O neoliberalismo deveria ter acabado com a burocracia estalinista que acusava o sistema de planificação central estatal mas não o fez: piorou-a, privatizando-a e repartindo-a em inúmeras instâncias desconexas infinitamente mais frustantes. Pensem “call-center”, disseminado a todos serviços que tocam o quotidiano dos cidadãos, onde se segue um guião, impossível desviar desse, e onde nenhuma autoridade –ie, “responsabilidade”- se consegue convocar à resolução de problemas. Outra brecha no realismo capitalista ao qual voltaremos adiante.

Exemplo final em final de capítulo: educação. E, fazendo nossas as suas palavras:

I will draw extensively on my experiences there.

Fim cap.

ainda o "Vapor" de Max

realismo parte vi

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realismo capitalista 2

CAPÍTULO 2:
“E se organizasses um protesto e toda a gente aparecesse?”


Imagem: "Vapor" por Max

Mark Fisher começa o segundo capítulo no seguimento do gangster rap e da "super-identificação" à mais predatória das faces do capitalismo como exemplo extremo para imediatamente demonstrar que o mesmo realismo capitalista pode coexistir no pólo oposto: na sua própria contestação. Recorrendo a Žižek e parágrafos antes de introduzir Baudrillard, defende que o anti-capitalismo encontra-se perfeitamente disseminado entre o capitalismo, o qual não só convive sem sobressalto com essas forças antagónicas como as absorve no seu folclore, processo pelo qual se renova sem se reformar. Enter Jean Baudrillard por via da sua visão de controlo e comunicação, onde a subjugação já não ocorre enquanto subordinação a um espetáculo externo mas no convite à participação. Um exemplo Disney/Pixar depois e estamos novamente no reino da ironia: as sátiras feitas ao capitalismo que o reforçam sem o desafiar – conceito de interpassividade por Robert Pfaller: escapes que cumprem os nossos impulsos  anti-capitalistas por nós e que nos permitem continuar a consumir com impunidade feita a catarse por delegação. Desenvolvendo de Žižek, desde que acreditemos ( "nos nossos corações") que o capitalismo é mau, somos livres de participar neste e o capitalismo subsiste perfeitamente bem com essa estrutura de desaprovação. Confrontados à sua crítica directa e não podendo mais alegar a inconsciência das suas perniciosidades, MF identifica a ideologia do mesmo como o seu mecanismo de defesa. Uma que, novamente, reverte ao subliminar e contrapõe à propaganda aberta do fascismo ou estalinista pois ao contrário desta não só não precisa de ser explícito como também não depende das crenças subjectivas dos indivíduos, podendo mesmo substituir com sucesso sem que ninguém tenha forçosamente que "fazer o caso por ele".  Novamente Žižek e a sociedade pós-ideológica, e nesta a ideologia prevalecente é o cinismo (*).

* Como no capítulo anterior, as comparações aos P+ devem contemplar aquela distância que nos separa.

Da ideologia e do cinismo pós-moderno: a ideologia que este vincula não é uma ilusão que mascara  a realidade mas uma fantasia (subconsciente) que estrutura essa realidade, e assim continuamos a ser uma sociedade ideológica, incapazes de ver além dessa fantasia (*):

Even if do not take things seriously, even if we keep an ironic distance, we are still doing [it]

* Em recap, portanto: P+, distâncias, e o keep doin’ it...

Nessa base defende que os movimentos anti-capitalistas também sucumbiram ao realismo capitalista:

  • Mesmo no seu auge antes do 11 Set foi-lhes impossível formar uma alternativa coerente;
  • Demasiado focados em minimizar os excessos do capitalismo, poucos esforços no sentido de o substituir.

Duas tendências que promovem o protesto em vez da organização política, e novamente nos larga em tópicos próximos deste espaço – por alguma razão estamos a ter esta conversa :) Protestos, e manifestações. Que, para MF, se tornaram numa espécie de barulho de fundo carnavalesco ao capitalismo. E esta poderia ser a deixa à introdução das nossas teses mas continuaremos a acompanhar Fisher que está agora focado no protesto institucionalizado –palavra nossa para distinguir de outros protestos mais caóticos – com exemplo do Live 8. Esmiuçado e regurgitado em termos filosóficos – ou Freudianos?- MF vê nesse tipo de evento o protesto contra um "Pai" malévolo com acesso a infinidade de recursos e dos quais não partilha. Mas essa figura é uma construção da parte protestante, da qual depende para força e revindicações, e da qual as elites que beneficiam da globalização dispensam e evitam com sucesso identificar-se. Por esta altura é claro que MF faz depender da crítica ao capitalismo uma introspecção inicial entre aqueles que se propõem fazer esse combate:

To reclaim a real political agency means first of all accepting our insertion at the level of desire in the remorseless meat-grinder of Capital.

Apenas identificando a nossa cumplicidade ao sistema o podemos derrotar: este é simultaneamente uma estrutura interpessoal híper-abstracta e uma que se renderia inútil sem a nossa cooperação neste –a ponto de, ironicamente, se poder dizer que as elites políticas são nossos servos pois apenas existem para nos saciar das nossas necessidades e desejos, despossados como se não fossem nossos. Sem alternativas reais ao capitalismo e, pelo contrário, ao considerá-lo a única possibilidade real com a qual a entender-se, deixamo-nos enredar na fantasia de que através do consumismo ocidental – intrinsecamente implicado nas desigualdades que assolam o planeta – se podem resolver as suas consequências nefastas -

All we have to do is buy the right products.

...ainda "Vapor" por Max

Fim de cap.

realismo capitalista #3

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"we end up with the acceptance characteristic of capitalism"

Já que fechámos o chapter I do "Capitalist Realism" do Mark Fisher com uma nota de rodapé a exemplo citado do jornal, desse mesmo jornal um outro exemplo mais completo a merecer o destaque por razões além das intencionadas. 2017 é de facto o ano de MF, uma dupla infelicidade ter-se suicidado no início do ano. De hoje, como numa só peça encontramos ecos das suas teorias, e como as aplicamos às nossas:

Prémios.
$$$
Literários.
Indústria.
DIY.
Academia.
Punx.

Shiit, tantos tópicos que nos são recorrentes, como resistir?

Prémios, o mais rápido então: fuck those.

Realismo capitalista aplicado aos literários.

Incapazes de conceber uma alternativa ao capitalismo e este consegue subsumir e consumir toda a história que o precede, criando uma equivalência de valor monetário a todos os objectos culturais e rituais onde "the old struggle between detrournement and recuperation, between subversion and incorporation, seens to have been played out" ...? Sure:

The Booker prize is most literary publishers’ primary marketing tool

Acceptance is one of the most dismaying political consequences of capitalism. It informs the literary too, and the way publishers and writers "go along" with things.

And the magic dust of the free market gives to the episode the fairytale-like inevitability Karl Popper said history-writing possesses: once history happens in a certain way, it’s unimaginable that any other outcome was possible.

The attractiveness of the free market has to do with its perverse system of rewards – unlike socialism, which said everyone should be moderately well off, the free market proposes that anyone can be rich. The Booker’s randomness celebrates this; it confirms the market’s convulsive metamorphic powers. In literature, it has redefined terms like "masterpiece" and "classic".
in "My fellow authors are too busy chasing prizes to write about what matters" 16 ago 2017

E o exemplo maior:

I was shocked to run into a novelist who used to regularly rant against the Booker soon after he’d finally won it. It seemed like a part of his personality had gone. Docilely, he was doing the promotional rounds, as if he had been administered a massive sedative. He was robbed of the crusading bitterness that once animated him, and had become a case study of the memory-erasing contentment that capitalism provides.
in "My fellow authors are too busy chasing prizes to write about what matters" 16 ago 2017

Aceitação, surrender. O exemplo dá-se a mais leituras, que retomaremos depois de apresentar os restantes snippets. Continuando,

Indústria

There are relatively few publishers who identify, and are loyal to, novelists in the long term because of commitment to literary merit. Publishing houses were once homes to writers; the former gave the latter the necessary leeway to create a body of work. Today there’s little intellectual or material investment in writers: literary prizes and shortlists are meant to sell books, and, although there’s a plethora of them, the Man Booker is the only one that has a real commercial impact.
in "My fellow authors are too busy chasing prizes to write about what matters" 16 ago 2017

Academia

A merecer-nos um carinho especial, tal como Fisher lhe dedica a mesma atenção. Desinvestida da sua missão primária, a constatação repete-se. Extra: substitui "literary festivals" por outras feiras de vaidades e o excerto que se segue engloba bem mais que os literários.

As in other walks of life under capitalism, there has been a loss of initiative among writers: a readiness to let others decide why their work is significant while they busy themselves at literary festivals. In British academia, this loss of control over what constitutes value, especially in the humanities, has had its counterpart in what the UK government equivocally calls impact. "Impact" is judged not by gauging the importance of new scholarly work to other scholars, but to the market. In emollient governmental language, impact is described as "an effect on, change or benefit to the economy, society, culture, public policy or services, health, the environment or quality of life, beyond academia". As academics have discovered, "beyond academia" is, fundamentally, the market.
in "My fellow authors are too busy chasing prizes to write about what matters" 16 ago 2017

Falta de controlo? Toma controlo. DIY.

The alternative isn’t another prize. It has to do instead with writers reclaiming agency. The meaning of a writer’s work must be created, and argued for, by writers themselves, and not by some extraneous source of endorsement. No original work is going to be welcomed with open arms by all, and the writer is not doing their job if they don’t make a case for their idea of writing through argumentation, debate, and fervour.
in "My fellow authors are too busy chasing prizes to write about what matters" 16 ago 2017

Argumentação, debate, com fervor? PUNX. Acresce à atitude a subversão e o novo.

Virginia Woolf didn’t wake up in the morning and think, "I wonder if Mrs Dalloway will be longlisted for the Booker?" She wrote instead her essay, Mr Bennett and Mrs Brown, questioning prevailing forms of valuation in the establishment. Her reformulation of what the novel could be or do, its impact on the reader, and, crucially, the ways in which we value or ignore its possibilities, is as pressing – as political – now as it was then. DH Lawrence, TS Eliot and Henry James too had to argue, in and outside their creative work, for their idea of the literary, because the question of why literature was important hadn’t been settled. It isn’t settled today.
in "My fellow authors are too busy chasing prizes to write about what matters" 16 ago 2017

O final da citação é, de resto, a base da nossa tese: a importância de um certo tipo de literatura ainda não está definida, e queremos dar o nosso contributo para que essa se guine na direcção certa.

E o exemplo não termina aqui. Apesar de todas as sobreposições – até encontrámos o TS Eliot como segway ao nosso post anterior... – há uma outra análise a registar além das palavras que já o foram.

Mais exactamente, a análise das palavras que foram retiradas no artigo original, uma vez que este que agora podem aceder online é a sua segunda versão. Para comparação: como ficará à posteridade, e como foi originalmente publicado:

"Wednesday 16 August 2017 Last modified on Wednesday 16 August 2017 16.55 BST"

O corpo do texto manteve-se inalterado, mas o seu título e lead foram substituídos. Podem encontrar o snapshot no Web Archive.

Novo título:

My fellow authors are too busy chasing prizes to write about what matters

Lead:

What we read is now defined by the market, as the views of Booker prize judges carry more weight than the need for originality and innovation

Título original:

Why the Booker prize is bad for writers

Lead:

To celebrate the true value and purpose of literature we need an alternative to this prestigious prize. I’m sure Virginia Woolf would agree.

Porque nos importa a mudança? Caros, é o market at work. Não cremos que tenha sido uma correcção, mas uma alteração do artigo. O url manteve a tónica no original, e ainda que possamos escusar essa por constrangimentos internos da ferramenta de publicação do jornal, espreitando os metadados notamos que inicialmente o foco se prende exclusivamente com os prémios, sem qualquer referências a "mercados".

  • url: booker-prize-bad-for-writing-alternative-celebrate-literature
  • description: Booker prize, Man Booker International prize,Culture,Awards and prizes,Fiction,Books

Se a primeira versão coloca sérias reticências sobre os Booker Prize e incita-lhe uma sugestão de crítica, na segunda versão o vilão da história é agora uma entidade difusa e abstracta chamada mercado - e os próprios fellow authors. Porquê? Porque não é bom para o business confrontar a galinha de ovos de ouro de toda uma indústria. Já acusar o sistema de ser o papão – como veremos nos próximos capítulos do CR,MF- é parte do sistema, como o é culparmo-nos no processo.

Senhoras e senhores, realismo capitalista.

realismo capitalista 2

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